Coeso em uma hora e 17 minutos de conversas regadas a litros de ironia, “Ayeh Haye Zamini“, dramédia de antologia traduzida para o Ocidente como “Terrestrial Verses“, é a prova de um frescor criativo de uma nova safra de cineastas do Irão, nascidos nos anos 1980 e revelados após o auge de Kiarostami e Panahi pela Europa afora.

Ali Asgari e Alireza Khatami assinam guião e realização deste filme nervosamente engraçado, que opera sempre com um dispositivo de diálogos no qual uma das partes a plateia nunca vê. Essa parte é sempre a ligada ao Poder, à autoridade.

O que vemos são nove microcontos – e uma coda de tom fantástico – no qual pessoas das mais variadas classes sociais recorrem ao auxílio de agentes públicos numa troca de diálogos onde um brutal exercício de força se sobrepõe à inteligência e à lucidez. Há, por exemplo, a sequência em que um jovem pai tenta convencer um escrivão a deixá-lo batizar o seu filho de David. Há uma áspera entrevista de emprego no qual uma candidata a uma vaga tem a sua intimidade desrespeitada pela voz que a entrevista. E vemos ainda uma mulher que perdeu o seu cãozinho a pedir a um polícia para verificar se o chihuaua dela não está num depósito onde se ouvem latidos de animais abandonados. A respostas dos sujeitos invisíveis que representam o Estado sempre traz verbos ligados à interdição e o termo “não!”. O enquadramento quase sempre fechado assumido pelos cineastas faz cada “não!” trovejar em cena.

É uma narrativa simples, mas de resultado estético provocaante. 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
terrestrial-verses-a-retorica-da-interdicaoCoeso em uma hora e 17 minutos de conversas regadas a litros de ironia, "Ayeh Haye Zamini", é uma dramédia de antologia traduzida para o Ocidente como "Terrestrial Verses"