Dez anos depois de apresentar em Cannes “Heli”, o cineasta mexicano Amat Escalante regressa à Croisette com mais um objeto brutal que expõe as disparidades sociais mexicanas, o privilégio e a corrupção das forças da lei, tudo na forma de um filme policial com “muletas” socio-políticas e (ainda) coloniais.

Drama intenso desde os primeiros minutos, onde vemos a polícia a atacar um grupo de ativistas que deseja impedir que uma mina seja instalada na região onde vivem, “Perdidos en La Noche” acompanha depois as investigações de  Emiliano (Juan Daniel Garcia Trevino), filho de uma ativista desaparecida nessa noite. Essa investigação leva-o até à casa dos Aldama, uma segunda habitação de uma “família” citadina cujo tridente –  Rigo (Fernando Bonilla), um artista conceptual, Carmen (Barbara Mori), uma cantora pop, e Ester (Monica Aldama), uma vlogger – estabeleceu-se na região. É nessa casa que Emiliano e a sua namorada,  Jazmin (Maria Fernanda Osio), vão pedir trabalho como desculpa para tentar descobrir o paradeiro da mãe desaparecida do rapaz.

Escalante, antigo assistente de realização de Carlos Reygadas (Batalla en el Cielo), têm na força estética dos seus filmes a sua grande mais valia e defeito e neste “Perdidos en La Noche” acontece o mesmo. A direção de fotografia e a banda-sonora unem-se para seguir um guião menos brutal e mais emocional que se esperaria, e que procura fazer de uma história individual (a de Emiliano e da sua mãe) uma parábola a um México à deriva perante uma segregação palpável e uma corrupção infindável. Nos apontamentos negativos, a estilização de atos brutais em nome do realismo soa a exploração.

No meio disto tudo, onde não faltam apontamentos críticos também à arte contemporânea (através da personagem de Riga) e ao capitalismo selvagem (na forma da mina e exploração laboral), existe a vertente policial que não é diferente de qualquer objeto que se encontra atualmente no streaming. O mesmo se pode dizer do triângulo amoroso Emiliano – Jazmin – Ester e as dificuldades de relacionamento entre Ester e Jazmin, ambas movidas a lugares comuns e universais.

Por isso mesmo, e apesar da estética aprumada, como se esperaria, temos alicerces convencionais na construção do guião, faltando o “punch” dramático e mesmo brutal que agarre os fãs recrutados pelo cineasta desde “Sangre” em 2005.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
perdidos-en-la-noche-mexico-das-injusticasUm objeto brutal, mas também convencional, que expõe as disparidades sociais mexicanas, o privilégio e a corrupção das forças da lei