Um ano depois de apresentar no Festival de Cannes “Broker”, a sua segunda aventura em terras internacionais (o filme desenrola-se na Coreia do Sul), o japonês Hirokazu Kore-eda regressou este ano ao certame com “Monster” (“Culpado – Inocente – Monstro” em Portugal), partindo do argumento de Sakamoto Yuji, cujos créditos incluem o drama romântico de sucesso “I Fell in Love Like a Flower Bouquet”, para mais uma vez abordar algumas das temáticas e marcas de autor que fizeram do seu nome uma presença constante na rota dos festivais internacionais.
É por isso mesmo que, quando arranca a longa-metragem e acompanhamos as dificuldades de uma mãe solteira em entender o que vai na cabeça do seu filho, percebemos que família e a infância/pré-adolescência voltam a cruzar-se no nosso caminho, embora agora com um trabalho de montagem à gritar pelo nome de Akira Kurosawa. “Segmentado” em três grandes blocos, “Monster” lida com uma diversidade de temas como a amizade, o bullying, o despertar sexual, o “cancelamento” e os mal-entendidos e rumores transformadores que se espalham à velocidade da luz.
No primeiro “segmento”, Kore-eda leva-nos principalmente até Saori (Sakura Ando), uma mãe solteira que vive numa pequena cidade japonesa com o filho, Minato (Soya Kurokawa). Desde o primeiro momento que sabemos que a relação dos dois é, no mínimo, curiosa. Isso mesmo se entende quando ambos observam, da janela, a um incêndio na rua. Progressivamente, e à medida que a ação avança, a relação dos dois vai-se complicando, chegando tudo ao espectador através de uma sucessão de eventos caricatos, quer em casa, quer na escola do rapaz. Tudo ganha uma nova escala após uma alegada agressão que Minato sofreu nas mãos de um professor.
A partir deste momento, Kore-eda leva-nos entre o drama e o suspense à vida deste rapaz, ainda sob a perspectiva da mãe, partindo depois, num segundo segmento – sem qualquer pré-aviso ou separador -, para o entendimento da mesma história, mas agora sob o ponto de vista do professor. Finalmente, e num terceiro ato, que apresenta um verdadeiro clímax emocional, o nipónico mostra o ponto de vista do menino, colocando em cena com maior detalhe a relação que ele tem com Yori (Hiiragi Hinata), um rapaz que vive com um pai alcoólatra e abusivo, na construção de uma bela amizade, mas que efetivamente ser um pouco mais.
Sempre trabalhado com uma inspiradíssima colaboração do diretor de fotografia Ryûto Kondô (esteticamente é o filme mais conseguido do realizador), que repete a colaboração com o cineasta após “Shoplifters” e a série de TV, “The Makanai”, e uma banda-sonora deliciosa a cargo do falecido Ryuichi Sakamoto, “Monster” junta o melhor do Kore-eda que conhecemos e amamos, mas agora com um novo sentido de contemporaneidade, destacando-se, principalmente, o estudo cuidado das relações, que vão desde as maternais a filiais, passando por amicais ou amorosas. Pelo caminho, e sem nunca cair no objeto panfletário ou manipulador, o japonês entrega-nos um trabalho que muitos vão certamente comparar a “Close” de Lukas Dhont, mas que no fundo é um puro Kore-eda na sua habitual jornada emocional, social e política, onde histerismos, artificialismos ou explosões ideológicas são substituídos pela calma e naturalidade do realizador.




















