Em todo o seu cinema, Mia Hansen-Løve sabe bem como explorar os sentimentos humanos. Em “Uma bela manhã” (Un beau matin), 2022, isto não é diferente. Somos convidados a entrar na vida de Sandra (Léa Seydoux), uma jovem mulher, tradutora, que cria sozinha uma criança com cerca de 8 anos tendo que lidar com os desafios da maternidade. Somos convidados também a entrar na existência do professor de Filosofia aposentado Georg Kinsler (Pascal Greggory), pai de Sandra, homem que não pode se esquivar de uma morte lenta diante de uma doença incurável. Passado e presente do pai e da filha são entrelaçados, assim como situações de sofrimento, afinal viver não é simples como parece.
Em planos mais abertos e moventes a câmara percorre a protagonista inquieta e sempre ocupada, dentro e fora de casa, de noite e de dia, acompanha-a desempenhando diferentes papeis sociais: como mulher, amante, mãe, filha dedicada e tradutora; somos guiados por ela. Uma mulher que mesmo em raríssimos momentos de prazer, aparenta ser triste e só, sequer consegue realizar os seus desejos ou pensar no futuro. Sandra visivelmente sofre com e pela doença do pai. Ela volta-se muito mais para ele do que para a sua filha ou para si própria. Nem mesmo um possível relacionamento, que vai acabar por surgir no seu campo afetivo, desliga-a da conexão, zelo e atenção que o pai idoso demanda por causa da saúde fragilizada.
A velhice é um tabu social, visto por muitos como algo indesejável, um tema ainda pouco abordado no cinema, e, mesmo quando retratada, recebe pouca atenção.
Se envelhecemos é porque estamos vivos, mas a verdade é que há um fardo social e familiar grande demais para lidarmos com isto.
No Brasil, de onde venho, é raro uma família colocar os idosos em Lares. Contudo, supreeendo-me que na Europa seja algo comum, não importa a classe social. Entretanto, serão mais bem cuidadas as pessoas envelhecidas que tiverem melhor situação financeira.
O curioso é que as pessoas passam décadas a construir estruturas confortáveis para gozar de boa qualidade de vida até o apagar da chama vital, todavia nem todas podem viver a velhice onde passaram sua juventude e anos supostamente felizes, como é o caso do professor de Filosofia aposentado, no filme “Uma bela manhã“. Personagem interpretada magistralmente pelo ator Pascal Greggory, ele é capaz de incorporar até mesmo os trejeitos que a doença degenerativa neurovisual força o corpo e a mente a deteriorarem-se.
O professor não se rebela contra a doença, pois sabe que é inútil, então tenta aproveitar os momentos com a filha dedicada e com as visitas de uma mulher estrangeira latina, sua suposta atual companheira, no entanto, por razões estranhamente desconhecidas, não podem viver juntos.
Entre as visitas e o cuidado com o pai, Sandra começa o envolvimento afetivo com um antigo amigo, Clément (interpretado por Melvil Poupaud). Mas ao invés dos encontros trazerem alguma alegria para o seu dia-a-dia, provoca-lhe mais incerteza e fragilidade. Sandra tenta sair do luto pela perda do marido, tenta acordar os seus afetos e iniciar um relacionamento, porém, a vida parece estar contra ela, que não pode confiar a Clément os seus desejos e emoções. Ele é casado e tem um filho, disto ela já sabia, contudo, como está vulnerável envolve-se com Clément, que joga com os seus sentimentos, não assumindo o relacionamento com Sandra, nem abandonando a esposa – aproveitando-se assim dos afetos das duas. É comum, seja na ficção ou na realidade, homens a jogarem com os sentimentos da mulheres e elas nem sempre conseguem se libertar da dependência deste tipo de amor, que mais gera problemas do que prazer.
Voltando à história do pai de Sandra, dia após dia, o professor de Filosofia vai perdendo a visão e a lucidez, instalando-se no seu cerébro uma confusão mental, além do desgaste físico. Um homem que destinou a sua existência a ensinar filosofia, a PENSAR, e se encontra diante de um tumulto de forças perecíveis. A mente, algo que lhe era mais precioso, foi a primeira a ser afetada pela Síndrome de Benson.
A velhice e a doença, pior ainda se as duas ocorrem em conjunto, têm um custo muito elevado para a saúde pública e nem sempre adequadamente e respetivamente apoiada ou tratada pelo Estado, como vemos no filme de Mia Hansen-Løve. O Professor Kinsler, depois de se aposentar, adoentado vai se definhando, perdendo vitalidade. A sua família, vendo a necessidade de cuidados especiais para ele, é obrigada a se desfazer das suas memórias, em especial dos livros dele. Sandra se vê constrita a alugar a casa do pai e transportá-lo para viver de hospital em hospital, enclausurado numa enfermidade silenciosa e lenta. Uma vez que os Lares públicos para idosos não são capazes de cuidar de alguém nesta condição, e os Lares privados são demasiado caros. Apesar de o professor ter um bom rendimento da reforma, o dinheiro que recebe não é suficiente para ser tratado e cuidado devidamente.
A pessoa contribui ao longo da sua vida profissional para a Segurança Social, e quando necessita do apoio do Estado, os serviços são insuficientes ou precários. Mas durante os anos socialmente úteis, serve a sociedade, como é o caso do professor de Filosofia Kinsler.
Como nos mostra o filme, envelhecer é mesmo um modo de existir desafiante.
E é duro saber que mais cedo ou mais tarde tudo tem seu fim, até mesmo nós.
………………………………………………………………….
Uma bela manhã/Un beau matin (2022) é a oitava longa-metragem com argumento e realização de Mia Hansen-Løve e montagem de Marion Monnier. O filme estreou em França, este ano, na Quinzena dos Realizadores – Festival de Cannes. Teve a sua pré-estreia em terras lusas na Festa do Cinema Francês de 2022, dia 4 de novembro, no cinema S. Jorge. E a sua estreia comercial se dará a 10 de novembro nas salas de cinemas em Portugal. A não a perder!
Mia Hansen-Løve é de origem dinamarquesa e nasceu em Paris em 1981, é roteirista e realizadora. Iniciou no cinema aos 17 anos como atriz no filme Fin août, début septembre (1998) de Olivier Assayas, que depois se tornou seu parceiro afetivo até 2016. Em 2001, ingressa no Conservatório de Artes Dramáticas de Paris, mas abandonou o curso. Colaborou com a renomada revista de cinema Cahiers du Cinéma e iniciou-se na realização com uma ,curta-metragem, Après mûre réflexion (2004). Os seus filmes têm sido premiados em festivais e aclamados pela crítica.




















