Maria Augusta Ramos é documentarista brasileira premiada e reconhecida internacionalmente, vive entre o seu país de origem e a Holanda. A maioria dos seus filmes são sobre investigações judiciais em relação à política. Com uma atenção atenta, corajosamente, ela expurga a estrutura de poder mafiosa que tem naufragado a vida do povo brasileiro nos anos recentes. Destaco, em particular, “O processo“, 2018 – filme que expõe os bastidores do injusto impeachment da ex-Presidenta Dilma Rousseff concluído em 2016; e o recente documentário “Amigo Secreto“, 2022, que surge a partir de uma cobertura jornalística chamada Vaza Jato, liderada na época pelos jornalistas Leandro Demori  e Glenn Greenwald, do The Intercept BR, e Carla Jimenez, Regiane Oliveira e Marina Rossi, do El País BR,  cobertura sobre a Operação Jurídico-Política nomeada Lava Jato.

Através do jornalismo de investigação, vemos em “Amigo Secreto” o desenrolar minucioso da Operação Lava Jato. Aliás, saliento a importância do papel da imprensa comprometida com a sociedade, de jornalistas independentes, combatentes, éticos e dedicados à denúncia pública das práticas criminosas do Estado.

A Operação Judicial Lava Jato, encabeçada pelo então juiz Sérgio Moro, que em abril de 2018 colocou o ex-Presidente Lula na prisão durante 580 dias, sem provas e apenas com convicções ideológicas, e indevidamente impediu a sua candidatura. Lula liderava as preferências para vencer as eleições presidenciais. Desta forma, Moro, em conluio com Bolsonaro (ex-capitão expulso do Exército Brasileiro e apoiante da extrema-direita), favoreceu a sua vitória  como presidente do Brasil, e a sua própria nomeação como Ministro da Justiça em 2019 (ainda que temporariamente devido ao rompimento das relações entre ele e Bolsonaro. Um caso absurdo de politização da justiça.

Em 2019, Lula foi declarado inocente de todas as acusações.

O filme contextualiza de forma ampla e detalhada a farsa da Investigação Lava Jato construída no Brasil entre 2017 e 2021 por Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e os seus aliados. Evidencio, lamentavelmente, que no passado 2 de outubro, na primeira volta das eleições no Brasil, estes dois nomes centrais desta Investigação,  foram eleitos: Moro, a senador e Dallagnol a deputado. O ex-juiz e o ex-procurador tornaram-se políticos após comandarem a Lava Jato. Um dos grandes absurdos que se vê no Brasil recente.

O títuloAmigo Secreto faz referência a um grupo de oficiais da Justiça brasileira, no TELEGRAM, incluindo Moro e Dallagnol, onde trocavam informações sobre a Lava Jato e a situação do ex-Presidente Lula na época. 

Filme cuja sinopse informa que, após quase três décadas de estabilidade democrática, o Brasil escorrega para o fascismo. E alerta sobre o sistema judicial que agiu, produzindo uma “guerra jurídica”, usando a lei como arma contra os opositores políticos, pondo a democracia em perigo e o país no abismo. Quatro jornalistas independentes investigam a suposta operação criminosa anti-corrupção que se tornou um instrumento de perseguição ideológica da esquerda.  Esta  investigação feita pelo sistema judicial brasileiro, trouxe graves consequências sociais, políticas, eleitorais e económicas para o país. 

A realizadora utiliza imagens filmadas, material de arquivo em imagens e áudios. Criativos e irónicos recursos de montagem são usados para mostrar o funcionamento interno da justiça e da política brasileira do tempo atual. Com a cobertura jornalística Vaza Jato, muita sujidade tornou-se pública, material que também serviu para por em cheque as reportagens da imprensa hegemónica no Brasil, que defenderam a Lava Jato. Maria Ramos, vai além, faz uma radiografia da situação sócio-política-económica catastrófica do Brasil desde que Bolsonaro tomou o poder no início de 2019. 

Estive no Brasil no final de 2021 e vi de perto os efeitos de tudo isto. Vi as pessoas a viverem aterrorizadas, uma polarização e ódio crescente entre aqueles que são cúmplices e apoiam Bolsonaro e aqueles que se opõem aos seus modos de governar escusos e autoritários; uma corrupção escancarada; a cultura, a saúde e a educação desmanteladas; a economia em crise; uma taxa de inflação de quase 6% ao mês; trabalhadores, até mesmo casados e com filhos, que perdem os seus empregos e se veem obrigados a voltar a partilhar a casa com os pais; o trabalho informal e precário (sem direitos), alastrando-se como forma de sobrevivência das pessoas; famílias inteiras, incluindo crianças e idosos, a passar  fome e a mendigar nas ruas dos centros das capitais; o endividamento dos pobres; o aumento da criminalidade, discriminação e exclusão social a passos largos. Algo que já não se via há muito no Brasil: uma tensão permanente estampada nas faces dos meus compatriotas. Tudo isso é lamentável e assustador. Um país destruído, em colapso, em completo caos e o povo que, no passado recente, viveu com dignidade, agora sofre, está temeroso, desnorteado, desesperado. 

Como brasileira, auto-exilada em Portugal (devido ao despotismo que se instalou no Brasil), tenho esperança que a 30 de outubro, na segunda volta das eleições presidenciais, o povo brasileiro tenha consciência política e vote de forma a restaurar a sua própria dignidade e para reestabelecer a nossa jovem democracia, elegendo o Presidente Lula e evitando afundar o país de uma vez por todas no fascismo liderado pelo atual presidente.

Infelizmente, a onda de tirania vem se expandindo pelo mundo, além do Brasil, esteve nos EUA com Trump, recentemente desapontou em Suécia e Itália, há mais tempo na Rússia, Hungria, Polónia e Turquia, etc. 

Amigo Secreto” é um documento histórico ousado e super relevante para a memória brasileira, a favor da democracia; necessário nos dias de hoje e para o futuro do Brasil. Estreou em salas de cinema brasileiras em junho deste ano, num ano e momento eleitoral desafiante e tenso.  Está a ser distribuído e foi coproduzido pela Vitrine Filmes e pela TV alemã ZDF, em associação com o canal franco-alemão ARTE.  Teve a sua estreia internacional no festival DocLisboa no dia 8 de outubro, momento que mediei o debate do filme, o qual contou com a presença da realizadora Maria Augusta Ramos, do jornalista Leandro Demori ex-Editor do The Intercept Br, da Produtora e Fundadora da Vitrine Filmes, Sílvia Cruz, e do renomado advogado criminalista brasileiro Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay) .  

Durante o debate, perguntei a realizadora sobre os desafios para realizar e lançar “Amigo Secreto“. Ela contou que o filme não foi contemplado com recursos públicos, e que o desafio e risco foi filma-lo num momento tão perigoso e pavoroso no Brasil frente as arbitrariedades do governo atual. Já para lançá-lo, ela relatou ter sido menos problemático, uma vez que desde o processo de produção teve como parceira a Vitrine Filmes, empresa que também é a Distribuidora do filme, como mencionei anteriormente.

Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
amigo-secreto-o-desenrolar-minucioso-da-operacao-lava-jato"Amigo Secreto"  é um documento histórico ousado e super relevante para a memória brasileira