Conhecendo a cinematografia da argentina Lucrecia Martel, uma cineasta que acompanho há anos, fiquei imensamente surpreendida com o seu recente filme, a média-metragem “Terminal Norte” (2021), uma estética completamente diferente do seu cinema habitual (com planos longos e pacientes ou fixos, subtil suspense, etc), é como se ela tivesse descoberto outra forma de fazer cinema e revelado algo mais pessoal, próximo de si, o que alarga e fortalece a sua arte.
O filme começa com um plano geral de uma paisagem rural à noite. Pouco a pouco as personagens são introduzidas, uma a uma, em primeiro plano olhando de lado e imediatamente em direção ao espectador, enquanto uma narração em off descreve as suas capacidades musicais. Tendo como personagem central a atriz e cantora lésbica Julieta Laso, parceira de vida de Martel. Personagens artistas, resistentes, que fazem parte das minorias sociais: mulheres indígenas, lésbicas e trans. Cada pessoa interpreta a si mesma.
Além de Julieta Laso, integram o filme a pianista Noelia Sinkunas, a rapper B Yami, a dupla Whisky (Maka Fuentes e Mar Pérez), as chamadas copleras Mariana Carrizo e Lorena Carpanchay – esta última é campesina, cantora e a primeira indígena trans dos Vales Calchaquíes; e aparecem também 2 ou 3 homens músicos.
Como surge o filme? Laso viajou para a cidade de Salta-Argentina com a intenção de preparar-se para um concerto que faria, mas a pandemia covid 19 desviou os seus planos. Então, ela decide juntar-se a outras mulheres, que parece, não as conhecia pessoalmente. Confinadas, passam a conviver juntas durante um período numa casa rural do norte do país, na citada cidade de Salta, terra natal da realizadora. Martel filma-as para construir o filme, que mistura ficção e documental. Ela empodera estas artistas libertárias pela forma como as filma, dá voz à sua arte e à diferença entre elas. Reuniram-se, visivelmente, numa encenação que possibilitou o filme existir.
Com duração de cerca de 40 minutos, a montagem alterna planos fechados e abertos e vagarosos das personagens dentro da casa ou no bosque; com cenas filmadas de modo rápido, imagens trémulas (câmara sem tripé) de alguém a conduzir numa estrada campestre; estas últimas, não são cenas de respiro, mas de intensidade, e todas rodadas à noite.
A impressão que tenho, é que todos no filme, até mesmo a realizadora (que não aparece no ecrã) estão felizes com o encontro, num estado de harmonia e transcendência. Achei a estética e a linguagem bastante criativa, bem humorada, pulsante, envolvente.
A banda-sonora abarca tango, milonga, rap e canto indígena, ritmos diferenciados que se unem pela expressão individual de cada artista que compõe e dá vida ao filme, sequências musicais filmadas entremeadas de conversas e histórias pessoais, intimidade e cumplicidade, poemas, cantorias indígenas e canções com letras recheadas de críticas sociais ao conservadorismo.
Assisti a Terminal Norte a 6 de outubro, na abertura do DocLisboa 2022, cuja sinopse descreve: “Durante o confinamento de 2020, Lucrecia Martel volta para a sua terra natal, em Salta, uma região conservadora da Argentina. Lá, acompanha Julieta Laso, que, como uma musa, a introduz a um grupo de artistas que desafiam a opinião dos outros em volta das fogueiras“. Perguntei-me o porque do título: norte é a região onde foi filmado, já terminal, não sei a razão.
O filme foi exibido na Berlinale e em outros festivais de cinema, esteve em cartaz nos cinemas argentinos, e está previsto chegar às salas portuguesas no dia 20 de outubro, com distribuição da Nitrato Filmes. A não perder!




















