O cinema e a troca de correspondência audiovisual como parte do processo de cura pela perda de alguém é o centro do mais recente filme de Sofia Bohdanowicz, desenvolvido em parceria com o turco Burak Cevik (The Pillar of Salt; Belonging) e o canadiano Blake Williams  (Prototype)

Cada um dos cineastas contribui com imagens em diferentes formatos: À passividade e dor de Bohdanowicz, intensificada por imagens granuladas 16mm a partir do seu alter-ego, Audrey Benac (personagem interpretada por Deragh Campbell, que já surgiu no seu filme “MS Slavic 7“), Williams responde em 3D e Cevik em 4K, entregando assim ao espectador um ménage à trois cinemático que mais que um filme comumente designado como experimental se assemelha a um gesto, não apenas de construção cinemática, mas de desconstrução de um processo de lidar com a dor de Audrey, encerrada no apartamento de Paris onde vivia a sua amiga falecida, Juliane.

Se no primeiro dia de exibição da competição turca no Festival de Antália fomos invadidos por imagens, formas e processos mais agarradas ao que chamamos de televisão, “A Woman Escapes” sente-se mais como uma instalação artística, longe de qualquer padrão do cinema popular. 

Objeto de nicho com algum encanto, embora se sinta sempre como uma curta enfiada na roupagem de uma longa-metragem, onde os riscos artísticos e poéticos podem sempre ser vislumbrados como pretensiosismo, “A Woman Escapes” pega e contorce Bresson e o espírito de “A Man Escapes” para entregar um objecto que joga com as expectativas do público, interagindo com ele sistematicamente através de um lembrete para colocar os óculos de 3D (também existe uma versão totalmente em 2D). É um vai e vem, uma troca, que nos leva além da posição de voyeur, mais conceptual que eficaz no aproveitamento da tecnologia, já que as imagens conseguidas desta forma acabam por ser limitadas quando isoladamente avaliadas 

E o trio de cineastas joga até com as famosas cores do azul e vermelho dos óculos arcaicos da tecnologia nos seus intertítulos, que numa espécie de diário nos vão mostrando as vozes de três personagens que se misturam longe da austeridade de Bresson, compondo antes um exercício onde os revestimentos são mais destacáveis que a narrativa, o esqueleto do projeto, em si, não faltando no mix algumas imagens do Google Earth/Street e diversas sequências com planos fixos de pura observação e contemplação.

No final, fica uma experiência particular que dirá sempre mais aos cineastas que ao público, mesmo que este sinta que partilha esta jornada.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-woman-escapes-o-cinema-como-curaUm ménage à trois cinemático que mais que um filme comumente designado como experimental se assemelha a um gesto artístico muito pessoal