O coletivo El Pampero Cine, que há quatro anos nos deu treze horas e meia de “La Flor”, “partido” em várias sessões, está de regresso com o também espesso “Trenque Lauquén”, agora no formato de dois filmes (fracionados em capítulos) com duas horas cada, os quais nos prendem num novelo elíptico que se vai desfiando e devorando como um livro, onde uma história principal vai revelando outras, que nem uma verdadeira boneca russa.

Na escrita deste “Trenque Lequen”, que por sua vez já tem uma ligação espiritual a “Ostende” (2011) da mesma cineasta, encontramos Laura Citarella, que produziu “La Flor”, e encontramos Mariano Llinás, aqui com algumas tarefas do foro técnico, chegando ao espectador mais que um trabalho de autor, mas um pensamento (não quero chamar movimento), que tal como o de muitos cineastas no passado, nunca faz uma verdadeira distinção entre cinema e literatura, filmando como escrevendo e influenciando-se em todo o lado e ao mesmo tempo, seja na obra de Roberto Bolano ou Mary Shelley, seja em filmes de culto como “Attack of the 50 Foot Woman“, ou na relação homem vs natureza que tanto Mark Twain como Henry David Thoreau dedicaram na sua obra. A própria Citarella mencionou estes nomes em entrevistas, a que se junta um ambiente de constante estranheza de um espaço (como em “Twin Peaks” ou “P’tit Quinquin“), ainda que sem uma verdadeira estilização das personagens que aí habitam, ficando estas sempre terrenas e “reais” no meio de eventos com o seu de quê de estranho. E isto mesmo, esta sensação, até me levou no primeiro filme a terrenos da literatura percorridos pelo nipónico Haruki Murakami, em que camadas e camadas de histórias e estórias se cruzam, são abertas e nunca encerradas por outras, transportando para espectador o “feeling” de estar sempre numa jornada imprevisível e impossível de decifrar na totalidade.

E é no meio desta amálgama de influências e ambições que Citarella faz algo notável: deixar clara uma marca de autoralidade, ou seja: este é um filme distinto que se sente tanto do El Pampero Cine como seu, onde um rol gigantesco de emoções surgem de claras opções textuais (diálogos, ações e eventos narrativoss), como das decisões técnicas formais (estética é narrativa e conta a sua própria história).

A base de tudo, ou quase tudo, é Laura, uma mulher que descobrimos que desapareceu através da busca obsessiva dela por parte do seu companheiro, Rafael, que arrastou Ezequiel nessa demanda, pois a desaparecida usou o carro deste para sair de cena. Das questões feitas a diversos habitantes da região de Trenque Lauquen, uma pequena cidade do interior da Argentina, verdadeiramente no meio do nada, saltamos para um exercício de memória por parte de Ezequiel, que se envolveu com a mulher após a descoberta de cartas porno-eróticas numa biblioteca. E nessas cartas nasce o mistério de uma tal Carmen, que esteve na área há décadas. E daí, sem uma lógica A para B para C, damos por nós numa rádio onde Laura tinha uma rubrica, além do seu espaço de trabalho no Departamento de Transportes do governo, e no seu trabalho de pesquisa em biologia vegetal. Tudo isto aparece ao espectador como o resultado do folhear de páginas de um livro que se consomem sem parar, ou um deslizar de frames de uma película onde o tema do desaparecimento deixa de ser o foco para dar lugar a outro.

E temos ainda uma alegada estranha criatura, que contribui para o filme com uma forte camada de “extra-ordinário”, num objeto que aparenta à primeira vista ser bem terreno no campo do drama de investigação pessoal, mas aos poucos vai se revelar como uma verdadeira descoberta de invisibilidades que existem no mundo de Laura, como que nos dizendo a nós (e ao amante e noive) que é impossível ter uma noção de todas as dimensões da vida e psique de uma mulher.

E nisto tudo, fica a nítida sensação do universodas personagens principais se misturar com outras presença em cena mais pequenas (da radialista, à colega de Laura no trabalho governamental, à escola que visitamos para o mistério de quem é Carmen), como se pessoas comuns que parecem apenas estar a viver o seu quotidano fossem arrastadas para um filme ficcional.

No final, temos assim um dos trabalhos mais conseguidos de 2022 e um estonteante exercício de estilo que coloca e perpetua Citarella e o coletivo El Pampa no mapa mundo do cinema de autor.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
trenque-lauquen-o-brilho-das-lauras"Trenque Lauquén" é para devorar como quem folheia um livro impossível de largar até à última página