Já com uma mão cheia de curtas-metragens na bagagem, a britânica Georgia Oakley estreia-se nas longas com um exercício exemplar de contenção e captação da paranoia oitentista no Reino Unido, época em que – no auge da crise da Sida – o governo de Margaret Thatcher aprova legislação homofóbica, mais conhecida como Secção 28, que interditava comunidades, escolas e autoridades locais de “promoverem a homossexualidade”.
Essa nova secção ou cláusula, que funcionava como uma emenda à Lei do Governo Local de 1986, tem implicações imediatas em toda a comunidade LGBT, despertando uma mobilização do movimento pelos direitos de lésbicas e gays, na qual – timidamente e sempre atuando com uma vida dupla – se insere Jean (Rosy McEwen), uma professora de educação física que tenta manter incógnita a sua orientação sexual com medo de represálias.
Fascina principalmente em “Blue Jean”, título emprestado do tema de David Bowie (cujo visual inspira a nossa protagonista) lançado em 1984, a forma controlada como Oakley retrata uma época normalmente apresentada no cinema e TV como espampanante; além de representar uma mulher comum cercada pelo medo, que aqui nos chega através das ondas de rádio e dos professores que trabalham Jean e murmuram sobre a nova leia numa forma de clara aprovação.
E essa luta de Jean, profundamente interna, não a afeta apenas a ela, mas põem em xeque a relação que tem com outra mulher, especialmente depois de uma jovem de 15 anos, sua aluna, começar a frequentar o mesmo circuito de amizades e se envolver num escândalo com outra aluna.
Mais do que um drama de época, que o é, e um ensaio ativista nunca rendido ao mero entretenimento,“Blue Jean” cose-se pelas linhas do thriller e chega mesmo a tocar nos cânones do terror psicológico quando o pânico se instala e começa uma verdadeira fragmentação da psique de Jean, a qual por entre capas procura “sobreviver” e escapar à ostracização, o monstro bem real (a homofobia institucional) que o filme apresenta.
E é inevitável falar de Rosy McEwen, exemplar ao carregar em si o peso de uma era e a necessidade de tomada de posição, qual soldada entrincheirada numa zona de guerra onde terá de optar: lutar ou esconder-se?




















