Muito valorizado nos últimos anos pelo triunfo autoral de Asghar Farhadi, o cinema dos dilemas morais tem passado as fronteiras do Irão e clamado forte presença em cinematografias como a turca. Mas parece que essa contaminação, antes de um novo reorientar geopolítico com inevitáveis reflexões culturais e artísticas, chegou também na Ucrânia, como demonstra “Yak Tam Katia?” (How is Katia), filme em competição em Locarno na secção Cineastas do Presente.
Assinado por Christina Tynkevych, aqui na sua primeira longa-metragem de ficção, o drama coloca em cima da mesa um evento extremo que complexifica o compasso moral de uma paramédica, Iryna (Iryna Verenych-Ostrovska), que após a sua única filha ser atropelada vê o seu mundo – já problemático – desabar por completo.
E nesse desabar, justiça e vingança se confundem nas ambições de uma vítima apresentada ao espectador, mas que entretanto se transforma em outra coisa qualquer bem longe do juramento de Hipócrates que foi obrigada a fazer.
Christina Tynkevych usa todas as ferramentas cinematográficas associadas ao realismo, como câmara sempre na mão, colada de forma sufocante nos atores para dar à vida a esta mulher de 35 anos com dificuldades financeiras, uma mãe doente, e uma relação amorosa na base do adultério. É esta mulher e esta atriz que carregam todas as maleitas do mundo e o peso do filme, a que se acrescenta um desejo pela explosão de uma condição de vida precária em toda a sua dimensão, onde não falta ainda um pequeno debate sobre luta de classes.
Sem deslumbrar, embora uma cena de Iryna a dançar tenha um forte impacto emocional, a cineasta consegue acima de tudo desconstruir (mais uma vez) o mito da personalidade que é infalível na definição e separação do bem e do mal, do bonzinho e do vilão. E isso é claramente um triunfo por si só, pois apesar de o que vemos no filme não ser o ex libris da inovação, “Yak Tam Katia?” tem suficiente força para nos prender do início ao fim, levando-nos constantemente a duvidar das opções de Iryna, que no fundo somos todos nós quando confrontados com um evento extremo.




















