Como são vistas as mulheres feministas?
Já paraste para pensar na condição social da mulher negra?

SONHO: “Seu nome era dor. Seu sorriso, dilaceração.
Seus braços e pernas, asas. Seu sexo, seu escudo. Sua mente, libertação.
Nada satisfaz seu impulso de mergulhar em prazer contra todas as correntes, em uma só correnteza.
Quem faz rolar quem tu és? Mulher! Solitária e sólida, envolvente e desafiante,
quem te impede de gritar do fundo de sua garganta único brado que alcança, que te delimita.
Mulher! Marca de mito embotável, mistério que a tudo anuncia e que se expõe dia-a-dia.
Quando deverias estar resguardada, seu ritus de alegria, seus véus entrecruzados de velharias,
da inóspita tradição irradias.
Mulher! Há cortes profundos em sua pele, em seu pelo, há sulcos em sua face que são caminhos do mundo, são mapas indecifráveis em cartografia antiga. Precisas de um pirata, de boa pirataria, que te arranques da selvageria e te coloque, mais uma vez, diante do mundo, Mulher!

A partir deste poema de Beatriz Nascimento (1942-1995), evoco a história de uma mulher negra brasileira. Beatriz foi uma teórica, historiadora, poeta e pioneira ativista negra antirracista brasileira; uma pensadora que ampliou e resgatou questões étnico-raciais e o lugar da mulher negra, para além do período esclavagista brasileiro.

No Brasil do século XVIII, na época do Império português, na região de Minas Gerais, na cidade de Diamantina (o então Arraial do Tijuco), Francisca da Silva (1732-1796), mulher que nasceu pobre e escrava, conquista o coração do Contratador de diamantes – João Fernandes de Oliveira (Mariana/BR 1720 – 1779 Lisboa). Ele apaixona-se por ela, compra a sua liberdade e assume-a como esposa. Um amor sem preconceitos. É então que ela torna-se Chica da Silva, após conseguir a sua alforria, passando a ser a mulher negra mais poderosa do Brasil deste tempo. Chica da Silva teve que fazer alianças para conquistar a sua liberdade, usando a sua coragem e o poder feminino mudou uma situação colonial quando passa a ser amada por um homem branco nobre. Ela ocupa o seu espaço na sociedade e acaba se integrando nela, mas deve se portar de acordo com os padrões morais e sociais deste tempo para poder aceder aos privilégios da Corte. Esta era praticamente a única forma de uma mulher negra entrar na sociedade branca naquela época e ser respeitada como mulher. Chica da Silva deixa de ser vista como uma mulher escrava, deixa de sofrer violações e o racismo na condição de escravizada e passa a ter voz e ser tratada como mulher, algo incomum no Brasil desta época, até porque a mulher negra era subalterna, desprezada e explorada pelos brancos como mão de obra escrava e até mesmo de forma sexual.

A noção de raça é uma construção histórica, económica e social e uma forte causa do racismo, e isso reduz a individualidade da pessoa a uma categoria. Ao longo da história, as implicações do racismo e do sexismo condenaram as mulheres negras a uma situação de exclusão e marginalização social.

Não custa lembrar que durante o Império Português no Brasil, cerca de 4,8 milhões de africanos foram transportados e vendidos como escravos, ao longo de mais de três séculos; outros 670 mil morreram a caminho do Brasil.

A situação da mulher negra na sociedade é um reflexo direto da forma como as camadas sociais são construídas. Como vemos no poema de Beatriz e na história de Chica da Silva, a sociedade sempre definiu limites e regras para a mulher se comportar e o racismo sempre existiu. Quando uma pessoa ousa ser mulher e negra, a coisa complica-se um pouco mais. É então preciso romper muitos preconceitos étnicos e de classe.

A exploração sexual das mulheres negras era comum durante a escravidão e foi institucionalizada por outras práticas opressivas”, como relata a teórica, ativista feminista negra bell hooks. Chica da Silva consegue romper tais questões. A história desta mulher já foi contada de diferentes e preconceituosos modos em filmes, novelas, livros, etc., e até na música Chica da Silva de Jorge Benjor.

Destaco que há séculos e séculos, os negros suportam preconceitos, racismo e discriminações de todo tipo. Ao longo da história, e não apenas colonial, muitas mulheres não tiveram voz ou puderam ocupar seu lugar no mundo, a sua voz quase sempre foi interdita.

As questões colocadas por Beatriz e a mudança na vida de Chica da Silva, mulheres negras importantes para a história brasileira, aproximam-se do filme “Ouvrir la voix/Abrir a voz” (2017), filme que trata do racismo, da condição da mulher e outras questões afins, trazidas pelas falas e protagonismo de 24 mulheres ativistas francesas de ascendência africana (três delas belgas). Mulheres de diversas profissões: investigadoras, engenheiras, intérpretes, várias artistas, etc.; com idades entre 25 e 50 anos aproximadamente. Uma geração de mulheres que tem construído o seu caminho combatendo e resistindo a preconceitos, permitindo-nos, através das suas falas, ouvir também a voz dos seus pais/parentes/antepassados, como viviam ou vivem em países colonizadores europeus.

Esta é a primeira longa-metragem de Amandine Gay, um filme que dá visibilidade à luta e à resistência de mulheres afrodescentes e ao movimento feminista negro. Amandine é afrofeminista, pansexual, investigadora, ativista e realizadora francesa, cresceu em Sant-Denis, subúrbio de Paris, e nos últimos anos optou por viver no Canadá.

Lembro que são poucas as mulheres negras que têm oportunidade de ocupar a função de realizadoras, de fazer filmes. É importantíssimo que este filme chegue aos jovens, às escolas e universidades, ao povo negro e a toda a sociedade. Um filme como ato de ativismo, pois, como disse a teórica e ativista negra Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Numa entrevista, Amandine relata que começou a pensar na realização de Abrir a voz, em 2013, quando decidiu mudar-se para o Quebec. Ela, tal como outras mulheres de descendência africana, escolheu deixar a França diante de diversas discriminações. Disse também que queria realizar o filme para deixar um vestígio da sua a vida naquele país, que na teoria defende (ou defendia) a utopia “igualité, fraternité e liberté”, mas na prática as coisas funcionam de outro modo, pelo menos para os negros que ali nascem e vivem. Segundo ela, a decisão de fazer o filme surge depois de trabalhar como atriz e de lhe oferecerem sempre papéis estereotipados: de toxicodependente, sem documentação legal, de mulheres que falam francês com sotaque africano e prostitutas, reforçando o racismo e o sexismo. Além disso, ela relata que o cinema francês sofre de um vazio na representação de mulheres negras por mulheres negras. Para ela, fazer um documentário é a maneira menos difícil para realizar um cinema militante, resistente.

Ouvrir la voix” é, portanto, um filme afrofeminista que traz assuntos negados ou ocultados pela sociedade, e temas urgentes a debater. Uma sociedade que sempre definiu quem pode ou não ter direitos e privilégios sociais. Assuntos que a realizadora conhece bem, visto que ela também é uma afrodescendente e coloca em discussão experiências pessoais e de outras negras. Um documentário sobre a partilha da vivência destas mulheres.

O filme de Amandine constrói um panorama sobre o racismo e sexismo, faz uma radiografia do lugar das mulheres negras em França (e Bélgica). Talvez este seja o primeiro filme da história do cinema em que as mulheres negras podem ser ouvidas durante duas horas sem serem interrompidas. O documentário expõe várias camadas de estereótipos, discriminação e estigmas sociais sofridas pelas afrodescendentes: na infância, na área educacional, na sexualidade/género, na crença religiosa, na maternidade e mundo laboral. A realizadora partiu de conversas com 45 mulheres, “pré-entrevistas” entre duas e três horas, selecionando 24 delas. Amandine não aparece no filme, mas por vezes ouvimos a sua voz quando faz perguntas às entrevistadas.

Rodado entre junho e dezembro de 2014 e montado somente em 2016, por falta de recursos financeiros, o filme é na sua maioria filmado com a câmara fixa e em primeiros planos com fundos desfocados, sem que a personagem olhe diretamente para a câmara (exemplo nos frames abaixo), planos que expressam certa intimidade e concentram em quem fala; existem também poucos planos abertos e discretos movimentos de câmara, e alguns contra-plongée com a intenção de empoderar as mulheres. Usa-se luz natural, não existe banda-sonora e nem voz-off, um recurso muito comum em documentários. E a montagem não dispersa o espectador em momento algum, apesar de ouvirmos por duas horas, 24 mulheres narrarem as suas histórias pessoais divididas em cerca de 15 capítulos + epílogo, cujos títulos são subtemas relacionados às questões que sofrem as mulheres negras.


Na voz das personagens ouvimos falas recorrentes de que a sociedade limita o que uma mulher negra pode ou não ser. Muitas das entrevistadas relatam que a sociedade francesa não reconhece como franceses as pessoas afrodescendentes das suas ex-colónias, ainda que tenham nascido na França. E sempre a questionam: De onde vens? Isso serve de negação à identidade e faz com que não se sintam franceses.

Uma das mulheres relata que em escolas francesas separam as pessoas negras dos estudantes franceses; as primeiras estudam em Colégios ZPE (Zone d’education prioritaire) – escolas em que o sistema de avaliação é facilitado e que depois os prejudicam quando querem estudar em universidades e escolas de prestígio para os franceses. Uma espécie de sistema de cotas para pessoas afro que não têm acesso ao conhecimento e às escolas destinadas aos franceses. Um sistema educacional, portanto, desigual e excludente. Outra questão trazida pelas mulheres está ligada ao cabelo, uma discriminação racista, principalmente, na ocupação de postos de trabalho que, em geral, são precarizados; tal discriminação afecta a aceitação delas como mulheres negras. Elas narram também que no caso afetivo se sentem, na maioria das vezes, invisibilizadas pelos homens brancos, que as veem como objetos exóticos, associando o comportamento delas ao tom de pele e ao fetiche da mulher negra selvagem, animalizada. Elas, igualmente lembram-nos que os negros são humanos como os brancos, e querem ser reconhecidos como tal.

Ainda hoje existem mulheres negras que devem aceitar posições subalternas para se adequarem à sociedade ocidental branca, cristã e heterossexual, em espaços profissionais e domésticos. O racismo estrutural da nossa sociedade coloca as pessoas negras em situação de suportar muitas coisas para sobreviverem. O acesso das mulheres brancas e negras são diferentes e nem mesmo a luta entre elas (entre nós) é igualitária. Creio que estas categorias só vão desaparecer quando a desigualdade e exclusão social desaparecerem.

O filme, apesar de ser documental, foi escrito e estruturado desde o início. A narrativa começa no dia em que as mulheres descobrem que são negras, tomam consciência do que isto significa numa sociedade pós-colonial e/ou pós-escravidão. E termina no dia em que decidem ou não deixarem França, explorando preconceitos e questões étnicas enfrentados pelas afrodescendentes.

Os desafios numa sociedade com valores e padrões historicamente hegemónicos, são ainda maiores para mulheres e pessoas negras, pois estão em condições mais vulneráveis. Uma possibilidade para reduzir as diferenças seria criar políticas públicas que fomentem a inclusão e possibilitem a liberdade das mulheres se constituírem enquanto mulheres, negras ou não. Além do debate sobre questões de género e da mulher negra, um modo de enfrentar as discriminações étnicas seria criar formas educativas que envolvam os média, as escolas, universidades, organizações sociais, etc., para que se aproximem das lutas e conheçam o papel social da mulher negra e os movimentos feministas. Seria preciso também acabar com a violência sexista; e alterar as estruturas sociais que sustentam tais violências.

Ouvrir la voix” é, portanto, um documentário que dá a palavra às mulheres negras vítimas de clichês e discriminações de diferentes espécies. O testemunho delas mostra uma diversidade de percursos de vida e a necessidade de reapropriarem-se da sua própria voz. Não por acaso, bell hooks disse que para construir a sua voz, enquanto mulher e negra, ela teve que falar, ocupar o seu espaço dentro e fora da universidade. Para ela, a teoria feminista deve servir para a libertação da opressão sexista, do racismo, da exploração de classe e outras violações operadas na vida social. E que as questões do feminismo negro devem envolver lutas de resistência que enfatizem a importância de descolonizar as mentes e criar uma consciência crítica.

Para cessar a tessitura desta escrita, volto a convidar-vos a reflectir em tudo que mencionei e nas questões colocadas no início: Como são vistas as mulheres feministas? Já paraste para pensar na condição social da mulher negra?

Amandine fez o roteiro, a realização e contribuiu na montagem de “Abrir a voz“, um filme com a duração de 2 horas. Obra disponível online na MUBI, Desde que foi lançado vem sendo premiado e gerado debates calorosos por onde passa, principalmente em França. Há várias entrevistas da realizadora a falar sobre o filme, disponíveis online no YouTube. Deixo aqui esta. E o TRAILER:

Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
abrir-a-voz-activismo-afrofeministaAbrir a voz é a primeira longa-metragem de Amandine Gay, um filme que dá visibilidade à luta e resistência das mulheres afrodescentes e ao movimento feminista negro.