Sempre Perto de Ti”, o mais recente filme de Uberto Pasolini, volta a abordar um tema caro ao realizador: a morte, e aquilo que acontece às nossas vidas quando o fim aparece a bater à porta. O seu filme anterior, e é já preciso recuar quase uma década até se encontrar “Still Life” (2013), contava a história daqueles que não têm história e que morrem sozinhos sem que ninguém lhes possa sequer realizar um funeral. Era a história de John May (Eddie Marsan), um funcionário da câmara que se encarregava de encontrar um final humano às pessoas a quem a vida até na própria morte lhes negou um sentido de pertença. E é esse sentimento de pertença, da família enquanto procura de um lugar no mundo, que anima este seu terceiro filme enquanto realizador (que também escreve e produz). E se em “Still Life”, Umberto procura colocar um ponto final digno na vida daquelas pessoas, “Sempre Perto de Ti” é um filme sobre um novo começo.  É a história de um pai (James Norton) com uma doença terminal, à procura de uma família de adoção para o seu filho, o pequeno Michael (Daniel Lamont).

Filme com um tema delicado, de uma sensibilidade que pode facilmente resvalar para um sentimentalismo forçado ou manipulador, a estrutura de “Sempre Perto de Ti” segue as sucessivas visitas que pai e filho fazem às possíveis famílias de acolhimento, visitas feitas a contra-relógio à medida que a saúde do pai se vai degradando. História de uma família incompleta (a mãe abandona-os pouco tempo depois do nascimento do filho), o flime abre também uma janela para o mundo interior daquelas famílias que por uma ou outra razão resolvem adotar uma criança, pessoas que de certa maneira também procuram fazer com que o seu legado no mundo passe não só pelo amor que a paternidade pode oferecer, mas também pelo sentido de responsabilidade da educação de uma criança. É talvez o lado mais ambíguo ou menos conseguido de uma narrativa que para todos os efeitos parte de uma história real, como se cada família no fundo estivesse ali para ilustrar um conjunto de motivações mais ou menos abstratas, motivações que quando vistas pela panorâmica que Umberto procura traçar, querem inevitavelmente expressar qualquer coisa de “sociológico” sobre a realidade da adoção.

Não espanta por isso que o filme seja em boa verdade carregado aos ombros por duas belíssimas interpretações dos protagonistas, muito em particular a de Daniel Lamont, uma criança com o raro talento de conseguir exprimir qualquer coisa de fundamental sobre o pequeno Michael sem recorrer ao maneirismo excessivamente melodramático que por vezes se encontra nestas idades: basta um olhar para de imediato se perceber o desnorte de um mundo prestes a desabar.

Pontuação Geral
José Raposo
sempre-perto-de-ti-uma-familia-contra-o-tempoFilme com um tema delicado, de uma sensibilidade que pode facilmente resvalar para um sentimentalismo forçado ou manipulador, a estrutura de “Sempre Perto de Ti” segue as sucessivas visitas que pai e filho fazem às possíveis famílias de acolhimento, visitas feitas a contra-relógio à medida que a saúde do pai se vai degradando.