As expetativas eram elevadas. Além do regresso do cineasta canadiano, oito anos depois de “Mapas Para as Estrelas”, e a presença de um elenco internacional de luxo (Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart), a promessa de choque, angústia e o abandono de espectadores da sala elevaram a fasquia de “Crimes do Futuro” para um nível estratosférico. Essa promessa, mais uma manobra de marketing que algo propriamente cinematográfico, não invalida que estejamos perante um verdadeiro exercício orgásmico para os fãs de body horror, navegando todos os outros por um estranho e sombrio mundo, num futuro não datado, onde o transumanismo está em marcha e a cirurgia e manipulação corporal fazem parte do quotidiano.
É que neste universo muito particular, a cirurgia tornou-se arte, uma arte digna de performance artística perante uma audiência: o corpo humano tem agora novos orgãos que se podem tatuar, com tatuagens que inspiram toda uma trend. É disso que a personagem interpretada por Mortensen, Saul Tenser, e a sua parceira, Caprice (Seydoux) vivem, num mundo cada vez mais sintético e cercado pelo minimalismo empoeirado e degradado dos espaços, mas repleto de dispositivos biotecnológicos avançados que permitem todo o tipo de manipulações. E além de arte, essas cirurgias são também representativas de novas formas de desejo e prazer sexual, aqui materializadas não apenas, mas principalmente, por Tomlin (Stewart), uma discreta trabalhadora do registo de órgãos, que tem um fascínio particular por Saul.
Aos elementos cronenbergianos habituais que o definiram como um mestre do cinema contemporâneo e Alma Mater do body horror, onde nos vem à cabeça filmes como “Existenz“, “Crash” e “A Mosca”, junta-se agora este mergulho pelo universo transumano, um gesto já presente no “Titane” do ano transato, mas também na obra de realizadores como em Yutaka Tsuchi, e essa sua louca viagem ao mundo da bioarte no seu fascinante “GFP BUNNY”.
E é uma delícia ver este naipe de atores, onde ainda se inclui Welket Bungué como o líder da Polícia do Vício (um nome sexy, como o próprio diz ), nitidamente empenhados na manifestação da visão de um cineasta de exceção, com um imaginário que não é para todos os gostos. Todos se entregam de corpo e alma a um projeto com um perfil que bem podemos dizer artensal, do guião cheio de gadgets e explicações técnicas, aos efeitos práticos, não esquecendo um design de produção austero, que se cola de igual modo ao trabalho da direção de fotografia e à própria banda-sonora de Howard Shore.
Tudo isto leva a que estes novos “Crimes do Futuro” de Cronenberg (não esquecer que o cineasta já tem um filme com este nome no seu currículo) não sejam um objeto tão impactante como acredita ser, ainda que mereçam definitivamente um olhar cuidado e apaixonado, como o de uma criança a olhar para um doce.




















