Do Kosovo, um filme sobre o dia a seguir à guerra. Filme de estreia da realizadora Blerta Basholli, “Colmeia” (Hive) aborda um episódio negro da história do Kosovo: o massacre nas aldeias de Krusha e Madhe, que em 1999 vitimou cerca de 240 pessoas, muitas delas ainda hoje dadas como desaparecidas. É essa tragédia que serve de pano de fundo ao drama do quotidiano das viúvas que sobreviveram à tragédia e que ficaram para contar, mulheres sobre quem subitamente recai a responsabilidade do ganha-pão e educação dos filhos, sem que tenham propriamente uma rede de apoio com que possam contar. Daí que “Colmeia” seja um flime que nos fala das pequenas conquistas, de lutas diárias que têm a capacidade de adquirir uma proporção desmesurada: passos tão mundanos mas afinal tão importantes, como o tirar a carta de condução para poder trabalhar, são também por isso um momento de emancipação, uma conquista de um espaço no meio de uma sociedade também ela cicatrizada por essa outra guerra que é a falta de humanidade.

Basholli apoia-se numa história com contornos fatuais para convidar o espectador a pensar sobre a realidade da vida numa época de confronto armado, mas se é verdade que o filme é ancorado num realismo com uma força documental, não deixa de ser também interessante notar a forma como em certos momentos a mise en scène da realizadora parece encontrar de forma intuitiva uma pulsão poética.

Filmado com a proximidade tornada possível pela câmara ao ombro num registo não muito distante daquilo que poderíamos encontrar em realizadores como os Irmãos Dardenne, “Colmeia” dedica muita atenção ao ritmo do trabalho levado a cabo pela comunidade de mulheres daquelas aldeias. E é também aí que se encontra esse duplo sentido do título do filme, uma duplicidade que não deixa de refletir um realismo com vocação poética: “colmeia” enquanto alusão à apicultura artesanal a que se dedicava o marido desaparecido de Fahrije (Yllka Gashi), mas ainda “colmeia” pelos laços de afeto e labor que se estabelecem entre as mulheres da comunidade.

É um bonito filme sobre a dificuldade da sobrevivência em tempos difíceis, ainda que por vezes fique a impressão de se estar perante um obra demasiado limitada ao lado mais imediato da realidade – veja-se por exemplo o epílogo final em que são mostradas imagens de arquivo  das pessoas de carne e osso que servem de inspiração à narrativa. Falta de imaginação ou dever de conduzir a arte pelos caminhos da verdade histórica? 

Pontuação Geral
José Raposo
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