Ana, pode ser chamado de um drama, em que se mistura ficção e realidade. O filme parte do conceito expresso por Virginia Woolf em seu livro Um quarto que seja seu, de que a ficção pode conter mais verdade do que os factos”. Lúcia Murat

Ana. Sem Título” (2020) é inspirado na exposição Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985, realizada em 2018 na Pinacoteca de São Paulo. A longa-metragem documenta o caminho percorrido por Stella, atriz brasileira que se debruça sobre cartas trocadas entre artistas latino-americanas nos anos 1970 e 1980. Através das cartas, Stella descobre a existência de Ana (interpretada pela atriz Roberta Estrela D’Alva), jovem artista brasileira que viveu em vários países da América Latina nas décadas de 1970 e 1980; artista sobre a qual Stella conhece pouco e deseja descobrir mais.

O filme é um road movie, conta com uma equipa de apenas quatro pessoas – a realizadora Lúcia Murat, a atriz Stella Rabello, o diretor de fotografia Léo Bittencourt e a técnica de som Andressa Clain Neves. As filmagens aconteceram em Cuba, México, Argentina e Chile. Durante a viagem, Stella indaga o passado de Ana através do passado das outras mulheres artistas que se corresponderam por meio de cartas, dando a ver na tela do cinema a realidade que elas enfrentaram enquanto mulheres e artistas durante as ditaduras latino-americanas. No trajeto das viagens, Stella, juntamente com a realizadora Lúcia Murat, tecem longas conversas com as pessoas que conheceram tais mulheres, na intenção de descobrir mais sobre elas e, principalmente, sobre Ana, a personagem principal de “Ana. Sem Título“. Na imagem a seguir, numa cena do filme, à esquerda Stella, e à direita Lúcia.

Stella, obcecada pelo paradeiro de Ana, resolve averiguar a fundo o que aconteceu com ela. A realizadora pouco intervém nas ações de Stella, dando ao espectador a sensação de que a própria atriz se dirige.

Ana deixou o Brasil em 1968 (diga-se de passagem, no ano mais tenebroso da ditadura militar, passados 4 anos desde o golpe de estado de 64), ela vivia numa pequena cidade do interior do Sul do país e partiu rumo a Buenos Aires, lugar que na época tinha uma efervescência cultural. No filme, não nos é dado a saber se Ana tinha consciência ou teria militado politicamente de alguma forma contra o regime militar; me parece que isto não ocorreu.
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O filme é também inspirado na peça “Há mais futuro que passado”, com dramaturgia de Daniele Ávila Small, espetáculo documentado em vídeo por Carolina Virgüez e disponível online. Peça teatral que estreou em março de 2017 no Sesc Copacabana, Rio de Janeiro. O espetáculo traz à luz, a vida e a obra de artistas latino-americanas que atuaram nos 1960-1980, tais como: Antonia Eiriz (pintora expressionista e escultora cubana que viveu entre 1920 e 1988); Olga Blinder (pintora, gravurista e escultora paraguaia, ela viveu entre 1921 e 2008, fundadora do Grupo Arte Nova), e a ativista, coreógrafa e poeta peruana Victória Santa Cruz (que viveu entre 1922 e 2014), etc. Mulheres que se comunicavam e trocavam experiências artísticas por meio de cartas. Cartas que estavam guardadas com as suas famílias e foram recuperadas por Daniele Ávila e outras mulheres: Clarisse Zarvos, Mariana Barcelos, Cris Larin e Tainah Longras; material que acabou sendo encenado no teatro. Nesta peça, quase todas as mulheres falam bem da artista plástica e performer negra brasileira, Ana (na imagem abaixo ela ao lado de sua companheira afetiva, uma chilena nomeada no filme de Lúcia Murat apenas como Sílvia).

Outras artistas mencionadas na encenação teatral e no filme foram: a fotógrafa mexicana Kati Horna (1912-2000) e a pintora Frida Kahlo (1907-1954); a muralista chilena Luz Donoso (1921-2008) e a cineasta argentina María Luisa Bemberg (1922-1995). Dentre outras mulheres, muitas delas passaram anos invisibilizadas pela sociedade.

Numas das cenas de “Ana. Sem Título“, há uma referência a artista negra ativista Victória Santa Cruz (excerto do trabalho documental “Black & Woman“, realizado pelo dramaturgo italiano Eugene Barba). Nele, Victória encena e discorre sobre o seu poema: Me gritaron negra. Cito parte do poema:

“Tenía siete años apenas, apenas siete años. Qué siete años! No llegaba a cinco siquiera!
De pronto unas voces en la calle me gritaron Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! ‘Soy acaso negra?’ me dije. Sí! ‘Qué cosa es ser negra?’. Negra!
Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía…

Ana também era negra. Sobre a discriminação que sofrem as mulheres negras, há uma cena no filme de Murat que desejo evidenciar: a jovem que capta o som, Andressa, declara que durante a viagem para a realização de “Ana. Sem Título” foi interrogada cerca de 4 horas por vários homens e humilhada num dos aeroportos pelo facto de ser negra.

Imaginem o que Ana passou tentando se estabelecer como artista sendo mulher negra, lésbica e pobre. Ana, depois de longos anos ausente de casa, retorna ao Brasil, ao lugar de onde partiu, sem dinheiro para se alimentar e sequer poder exercer a sua arte, restando-lhe o abandono e o anonimato no seu próprio país, se definhando até exaurir toda a energia vital.

Ana e as outras mulheres mencionadas resistiram aos desafios de fazer arte em tempos ditatoriais. Além de Ana, algumas delas trabalhavam de forma precária, com parcos recursos financeiros.

Em “Um quarto que seja seu/A Room of One’s Own” (1929), Vírginia Woolf fala das dificuldades (financeiras ou sociais) que as mulheres sempre enfrentaram para realizar a sua arte, se estabelecerem profissionalmente e ocupar o seu lugar no mundo enquanto mulheres. E destaca que, ao longo da história da humanidade, as oportunidades e os privilégios estiveram mais do lado dos homens. Nós, mulheres, seguimos resistindo, tentando romper barreiras e conquistar o nosso espaço na sociedade. Pouco a pouco vamos nos libertando do domínio do patriarcado, mas isto ainda leva um longo tempo, sendo, portanto, importante que mais histórias sobre mulheres sejam contadas e vistas.

Em “Ana. Sem Título“, Stella e Lúcia dialogam com testemunhas dos países que percorreram, dando a conhecer como eram as relações entre as mulheres artistas, incluindo Ana, assim como as particularidades de cada uma delas e os obstáculos que atravessaram para se colocarem enquanto mulheres e artistas nos países latino-americanos dos anos ditatoriais. Aceder ao passado destas mulheres faz com que não sejam esquecidas ou apagadas. Para além da história de Ana, a atriz Stella Rabello e a realizadora Lúcia Murat, trazem no filme histórias de memoráveis mulheres latino-americanas.

Filme que mescla realidade e ficção e aproxima-se da vida pessoal de Murat, mulher que experimentou na pele o que foi o regime de exceção, já que foi presa política no Brasil. E ela menciona no filme alguns nomes de pessoas que lutaram contra os governos ditatoriais e foram torturadas ou desapareceram nas mãos dos militares. A ditadura militar no Brasil durou 21 anos, de 1964 a 1985. Murat, ao decidir realizar “Ana. Sem Título“, declara que sabia que iria se defrontar com histórias da sua geração. Em quase todos os seus filmes, desde a década de 1960, ela aborda as questões políticas do seu tempo. E como ela mesma relata no filme: “as minhas histórias me perseguem”.

Ana. Sem Título” foi feito por uma realizadora veterana em longas-metragens e, em especial, na temática da ditadura militar brasileira. Lúcia Murat dividiu o roteiro do filme com Tatiana Salem Levy. Esta é a sua décima terceira longa-metragem, uma docuficção. Rodado em 2019 e em cores, com duração de 110min. TRAILER e uma Entrevista da Lúcia Murat a Filippo Pitanga/AIC-Academia Internacional de Cinema-São Paulo. E neste link mais detalhes sobre o filme, caso possa interessar a alguém.

Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
ana-sem-titulo-um-filme-de-lucia-muratNo filme, Stella e Lúcia dialogam com testemunhas dos países em que percorreram, dando a ver as relações entre mulheres artistas, incluindo Ana, as particularidades de cada uma e os obstáculos que elas atravessaram para se colocarem enquanto mulheres e artistas em países latino-americanos dos anos ditatoriais. Aceder ao passado destas mulheres faz com que não sejam esquecidas ou apagadas.