Envelhecer é uma merda, mas não chegar a velho parace ser ainda pior e deixa mais marcas em quem cá fica, como comprova o novo filme de Peter Entell, um documentarista mais habituado a questões sociais e políticas coletivas, como comprovam os seus documentários anteriores, “Changing This Country” (documenta a vida e trabalho de quatro trabalhadores negros)  ou  “Shake The Devil Off”  (sobre Nova Orleans após o furacão Katrina), mas capaz de fundir o coletivo com histórias mais pessoais, como o fez em “Like Dew in the Sun”, onde partia da fuga dos avós da Ucrânia há 100 anos atrás, para falar do presente.

Mas nenhum destes filmes citados entrou na esfera do íntimo e pessoal como este “Getting Old Stinks”, estreado mundialmente na secção Burning Lights do Visions Du Reel

Durante 15 anos, o realizador (que vivia na Suiça) filmou o pai (que estava nos EUA) até ao momento em que ele morreu aos 90 anos. Durante anos essas filmagens ficaram na gaveta, mas quando Entell completou 67 anos (idade em que o pai teve um ataque cardíaco) decidiu revisitar o material e completar o documentário, tarefa que executou durante três anos de edição (2019 ao início de 2022).

E ao falar do pai, o realizador fala também de si e da mãe, vítima bem mais cedo de um acidente hospitalar, o que a levou a nunca chegar à idade em que se começa a dizer a dizer que envelhecer é uma merda e as marcas físicas e psicológicas disso estão expostas a olho nú.

É através dessas imagens com o pai e os diálogos de vida que tiveram que Entell constrói uma reflexão sobre vida e morte, trajeto e legado. E nessa viagem o cineasta nunca tem pejo de visitar o passado e abordar algumas quezílias que teve com o progenitor, produzindo assim um documento de memória que não só imortaliza o pai, como a mãe e ele mesmo.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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