O documentário dedicado à cantora norte-americana Olivia Rodrigo, a jovem cantora adolescente que teve um sucesso meteórico em 2021 graças ao seu álbum de estreia, é um pequeno retrato do processo de gravação de Sour, esse álbum que a transformou num fenómeno pop de alcance global do dia para a noite. Realizado por Stacey Lee e com produção da Interscope Films – o departamento cinematográfico da sua editora – “Olivia Rodrigo: driving home 2 u (a SOUR film)”- tem mais de objeto promocional que procura capitalizar o sucesso alcançado até aqui, que propriamente um olhar atento ou mais demorado sobre aos bastidores da sua carreira. Acontece que é sobretudo esse lado de auto celebração que mais interessa, a forma como Lee cristaliza a imagem de uma estrela pop em ascensão no imaginário coletivo, numa era em que a mitologia pop cruza cada vez mais a visibilidade mediática constante com a performance narrativa de uma biografia, uma biografia que tem tanto de singular como de universal.
Não é um acontecimento isolado, esta (renovada, diga-se) fixação de uma aura imagética (e magnética, já agora) a partir do documentário – por mais paradoxal que essa atitude nos possa parecer. Se em tempos não muito distantes o estrelato pop era coisa da ordem do mito, um mito que vincava o distanciamento entre a estrela e o reino de fãs que dela se alimentam, hoje bem que podemos dizer que essa distância se eclipsou: o Olimpo está à distância de um tweet, de uma story no instagram. E é nessa proximidade, nesse desejo de intimidade, que se joga a maior das fantasias: a autenticidade. Foi assim no documentário assinado por R. J. Cutler, “Billie Eilish: The World’s a Little Blurry”, mas também em “Taylor Swift: Miss Americana”, obras que cada uma à sua maneira moldaram a forma como se olha para as duas cantoras – no caso de Billie, uma presença marcada por uma “naturalidade” fabricada mas que se quer autêntica; em Swift, eventualmente pela forma como o imaginário americano aparece filtrado pela sensibilidade e “consciência politica” da cantora. “Olivia Rodrigo: driving home 2 u (a SOUR film)” é tudo isto e nada disto, dando antes a impressão de querer fixar a cantora numa lógica que mais depressa faz lembrar a energia da iconografia dos anos 90, que as nuances desta contemporaneidade.
E é verdade que até certo ponto o documentário de Lee não vai muito além de uma espécie de longo vídeoclipe, justamente pela forma como alguns dos temas mais emblemáticos de “Sour” são aqui reconfigurados. São esses momentos performativos que oferecem novas imagens às canções de Olivia Rodrigo que mais saltam à vista, um pouco como quem assume a costela cada vez mais cinematográfica da cultura popular, esse oceano de imagens tácteis onde todos vamos beber. O documentário cruza alguns momentos de bastidores, onde se levanta um pouco o véu sobre o processo criativo (com destaque para o momento em que um dos hits do álbum, o tema “brutal”, se materializa do ar) com uma viagem que atravessa a estrada de Salt Lake City a Los Angeles, um percurso que a cantora fez inúmeras vezes de carro. Era então uma jovem atriz da máquina Disney (um star system ainda sem rival e eventualmente um dos últimos fosseis de uma outra era) – Olivia fez parte do elenco de séries como “Bizaardvark” – e era nessas viagens que compunha os temas. O documentário recria essa viagem, fazendo paragens pelo caminho onde a cantora interpreta alguns dos temas, agora com novas roupagens e arranjos.
É um puro retrato do fervor mitológico da pop e da iconografia cinematográfica: veja-se por exemplo a performance de “traitor” numa bomba de gasolina perdida no meio da estrada; ou, momento maior, a versão de “good for u” com o Monument Valley(!) em pano de fundo.




















