Quem tropeçar neste ‘”Windfall” na homepage do Netflix, sem saber muito bem como é que foi ao certo ali parar (acontece a todos), poderá eventualmente ficar com a curiosidade espicaçada ao reparar no trio de atores que protagonizam este thriller de cabeça para baixo: Jesse Plemons, um ator que se tem que levar cada vez mais a sério e que se movimenta com igual à vontade entre a comédia e o drama (e vamos a ver como é que se sai nos próximos Óscares que estão aí mesmo ao virar da esquina); Lilly Collins, a protagonista desse guilty pleasure chamado “Emily in Paris“, e que sempre que pisca o olho ao cinema deixa sempre vontade de mais; e…. “o outro”, um Jason Segel que continua à procura do seu espaço desde os tempos do “That 70’s Show”, sempre com aquele ar de quem anda com a cabeça nas alturas e que aqui aparece como um dos criadores da história.

Realmente, o papel dos atores tem um lugar preponderante neste quase exercício de escrita de um senhor chamado Andrew Kevin Walker (a meias com Justin Lader), curiosamente uma personalidade com uma regularidade relativamente intermitente no meio, mas que tem a sua assinatura naquele que continua a ser um dos momentos altos do género – “Seven: Os Sete Crimes Capitais”, que continua até à data a ser o seu maior feito. Ora, o argumento de “Windfall” brinca com as convenções do género partindo de uma premissa enxuta, a de um “ocupa” com pouca habilidade para o crime que se aproveita da ausência temporária dos donos de luxuosas casas para roubar o que pode – e o que não pode. A inversão, o tal thriller de cabeça para baixo, resulta do ambiente de comédia que os protagonistas retiram da situação, com o casal representado por Plemons e Collins a sugerir uma e outra vez – e de forma mais ou menos inoportuna – maneiras do assaltante se desenvencilhar do regresso inesperado e fora do tempo dos legítimos donos da casa.

É claro que o filme realizado por Charlie McDowel não tem propriamente ambições revolucionárias, mas é esse lado mais desprendido que o permite de jogar com as expetativas do espectador sem nunca o reduzir a um mero autómato consumidor de imagens. E há escolhas interessantes, logo a começar pela presença de uma banda sonora com apontamentos jazzy, que contribui em larga escala para esboçar um ambiente imediatamente cómico e absurdo. Mas também a origem da fortuna do personagem interpretado por Jesse Plemons (o filme nunca aborda o verdadeiro o nome das personagens, num gag recorrente com a sua graça), o do CEO de uma start-up tecnológica, que acaba por oferecer um comentário mordaz sobre o universo privado destes novos ricos deste novo mundo – afinal tão estúpido como o velho.

Pontuação Geral
José Raposo
windfall-ladrao-mas-nem-por-issoO filme realizado por Charlie McDowel não tem propriamente ambições revolucionárias, mas é o seu lado mais desprendido que o permite de jogar com as expetativas do espectador sem nunca o reduzir a um mero autómato consumidor de imagens.