Passados vinte anos desde o último filme de Adrian Lyne, aquilo a que convencionalmente se designou por thriller erótico não ocupa nem por sombras o mesmo espaço no imaginário coletivo, uma “zona” não por acaso cada vez mais nebulosa e resistente a descrições mais ou menos analíticas. Não que o género tenha desaparecido por completo – vivemos afinal num mundo onde já ninguém é inocente e onde o próprio consumo se tornou erótico – mas precisamente porque se foi diluindo e entranhando na engrenagem narrativa da máquina de Hollywood, ao ponto de perder a autonomia (política, mas sobretudo estética) que em tempos gozou.  Realizado por uma figura de proa de um género situado nessa encruzilhada diabólica entre o arquétipo e o espírito dos tempos, “Águas Profundas” é um filme pós-#metoo e pós-50 Sombras de Grey, sem nunca deixar de transportar consigo a memória de outra época.  De forma bem sintomática e em entrevista ao site Collider, é o próprio realizador que dá conta das diferenças que encontrou na rodagem e do contraste que foi a sua experiência no set de “Atração Fatal”: se no filme que juntava Michael Douglas e Glenn Close os atores bebiam um copo de champanhe antes das cenas de sexo, aqui havia um coordenador de intimidade, e beber álcool tornou-se inviável por poder abrir a porta a processos em tribunal. Mas, chegados a 2022, o que nos pode afinal este “Águas Profundas” dizer sobre o mundo do cinema e sobre as pessoas que nele aparecem?

Logo para começar, e este será um dos muitos prazeres deste ressurgimento do cinema de  Lyne, o modo como uma postura auto-consciente e auto-reflexiva adquire aqui um papel central, um “desenvolvimento” que acaba por convidar o esboço de uma linhagem imaginária que se poderia traçar de “Atração Fatal” a “Infidelidade”. Não sendo propriamente um realizador que trabalhe a variação sobre um mesmo tema com a intensidade exaustiva de um cineasta como Paul Schrader, encontramos qualquer coisa de sintomático na forma como Lyne movimenta as peças no tabuleiro…dos casos extra-conjugais. De facto, longe vão os tempos em que Richard Gere perguntava a Diana Lane se ainda o amava – isto quando já tinha mais que confirmadas as suspeitas de traição da sua mulher. É esta ingenuidade (que apetece dizer parola), que ”Águas Profundas” atira bora forda com uma banalidade frontal, um gesto que o coloca a algumas milhas de distância dos filmes que o antecederam. E também não encontramos aqui o dinheiro como agente desestabilizador do casamento ou da virtude do amor romântico – ainda que tanto um como outro continuem a ser estruturantes dos relacionamentos.  

Na verdade, o que “Águas Profundas” propõe é simultaneamente mais arriscado e casual: em vez de encenar o ciúme como elemento externo, mobiliza-o como ingrediente estruturante da relação. E o mesmo se pode dizer da abundância material: deixou de ser uma garantia da estabilidade familiar, para se tornar em combustível de jogos de poder. E se por um lado tudo isto é transparente, também não deixa de se sentir uma ambiguidade que atravessa o filme como uma corrente de ar. É justamente esta ambiguidade que faz arder o casamento dos Van Allens, o casal representado por Ben Affleck e Ana de Armas, e que confere um elemento perfeitamente contemporâneo ao thriller que temos em mãos. É um jogo de espelhos – um “eu sei que tu sabes que eu sei” – que mais tarde ou mais cedo acabará também por convocar o espectador. Numa das sequências chave do filme assistimos a uma conversa entre o casal, um daqueles momentos em que a história nos diz ao que vem (uma belíssima adaptação do romance homónimo da incontornável Patricia Highsmith, a cargo de Zach Elm e de Sam Levinson, a força criativa da série “Euphoria”):  Melinda (Ana de Armas) confronta o marido, Vic (Ben Affleck), depois de mais uma noite em que cada um joga a sua cartada. Ela, abertamente sedutora como sempre, acusa o marido de ter assassinado a sua presa daquela noite. A resposta é-lhe devolvida com uma pergunta: se fui eu que o matei, porque é que não temes tu pela tua vida? E é aqui que o trunfo salta para cima da mesa: porque o mataste por mim. Vic fica imóvel por um breve instante, num daqueles momentos em que Affleck demonstra o extraordinário ator que também pode ser, e sorri para si, para ela, para o espectador, como quem dá o bluff por comprado e lhe dissesse com os olhos: não é belo o nosso amor? E o filme é isto, numa escalada constante, um jogo de sedução e morte em que o homicídio é prova de devoção.

É também por isso que as questões relacionadas com a verosimilhança da narrativa surgem francamente fora de tempo, como um tiro fora do alvo. Não estará tanto em causa o esboço do retrato psicológico de um casal confrontado ou enredado em situações “extremas”, antes a encenação neurótica do esqueleto do fantasma do casamento, outrora um pilar civilizacional e agora transformado numa brincadeira de gente rica. É o tipo de história que nas mãos de um realizador como Nicolas Refn nos apareceria embrulhada num marketing pensado para burgueses traquinas (parece que estou a imaginar)  – “UMA HISTÓRIA SUBVERSIVA”, assim em garrafais não se fosse a mensagem perder – mas que quando filmada por um autêntico veterano do alto dos seus 81 anos (!) nos parece a coisa mais banal do mundo.

Bem- vindo de volta, Mr. Adrian!

Pontuação Geral
José Raposo
Rodrigo Fonseca
aguas-profundas-amar-debaixo-de-agua “Águas Profundas” é um filme pós-#metoo e pós-50 Sombras de Grey, sem nunca deixar de transportar consigo a memória de outra época