“Hope Gap” (Uma Réstia de Esperança) é o segundo filme que William Nicholson realiza numa já longa carreira dedicada sobretudo à palavra escrita, num percurso que se estende da televisão ao teatro, passando ainda pelo romance – será eventualmente mais reconhecido pela sua colaboração para o argumento do já longínquo “O Gladiador”, de Ridley Scott.
O filme, que curiosamente adapta uma peça para teatro de sua autoria, “The Retreat From Moscow”, chega ao nosso mercado com algum atraso em relação à estreia internacional, e aborda um tema delicado – o divórcio – com a atenção de um veterano, mas sem nunca se apresentar propriamente como um todo: experiência frustrante, que revela um Nicholson duplamente inconsequente: um cineasta vazio de ideias, e um argumentista incapaz de desenvolver um esboço de pensamento cinematográfico.
Mas se tudo isto é verdade, importa também dizer que aquilo que oferece algum brilho ao filme são os atores, três belíssimos atores que fazem como que este retrato de uma família nuclear em crise ilumine qualquer coisa de fundamental nas relações humanas: o que é que se sente quando a vida nos tira o tapete? É essa reviravolta amarga que um dia bate à porta de Grace, uma reformada apaixonada por poesia interpretada por uma Annette Bening irrepreensível, e que certo dia é confrontada com a decisão do marido (Bill Nighy), um professor de história que faz da edição da Wikipédia um pequeno hobby, em dar uma volta à sua vida e dar por terminado um casamento prestes a chegar às três décadas. O filme de Nicholson procura frequentemente olhar para o casamento como um campo de batalha, um buraco que se abre na vida do casal – uma ferida que invariavelmente fere de morte o lado mais vulnerável da relação – e que ameaça desarranjar uma vida para todos efeitos acomodada. Não só a do casal, mas também a do filho (interpretado por Josh O’Connor), que se vê subitamente atirado para o meio do furacão e que se obriga a vestir o papel de protetor de uma mãe incapaz de aceitar a decisão do marido. E é precisamente aqui que Nicholson se revela incapaz de desenvolver um arco narrativo com um mínimo de desenvoltura.
Sendo certo que “Uma Réstia de Esperança” é um daqueles filmes em vias de extinção com orçamento modesto feitos pensar num público adulto, fica-se por perceber a verdadeira dimensão de Grace, uma figura permanentemente à beira do ridículo pela forma como se recusa a aceitar o fim do casamento, uma e outra vez “resgatada” de um registo em nada condizente com a sua idade pela performance de Benning. Nicholson aborda o tema do divórcio a partir de uma perspetiva desafiante – não aquela desilusão do fim de uma relação na casa dos 30, quando o sentido de toda uma vida ainda continua por traçar, antes uma separação quando a finitude da vida se faz sentir com outra urgência – mas não encontra um contexto dramático capaz de iluminar o que de mais humano pode haver nessas contradições.




















