Mais habituado ao registo documental, Francesco Costabile embarca na sua primeira longa-metragem de ficção através da adaptação do livro de Lirio Abbate, “Fimmine ribelli. Come le donne salveranno il paese dalla ndrangheta” (tradução literal: Mulheres rebeldes. Como as mulheres vão salvar o país da Ndrangheta), que apresentava uma série de histórias, aqui condensadas num único conto centrado em Rosa, uma jovem que desconfia da versão oficial do desaparecimento da mãe e que progressivamente descobre as ligações da sua própria família ao mundo da máfia.
Como é comum nos filmes que envolvem a Máfia, neste caso a Calabresa (Ndrangheta), o mundo em que Rosa se insere tem as suas próprias regras, vive de silêncios, omissões, lealdades e acordos obscuros, um universo no qual se nasce, mas não se consegue escapar. Francesco Costabile cria permanentemente uma atmosfera sombria que acentua Rosa como uma ferramenta ao serviço de algo maior, submetendo-se sistematicamente a um jogo de homens implacáveis nas suas ambições e objetivos.
Como o título impõe, este é um olhar no feminino sobre a questão, mas isso não significa – todo menos – uma viagem menos brutal, já que num crescendo, o silêncio de Rosa é interrompido e a raiva e rebelião tomam conta de si. Aliado ao trabalho da atriz Lina Siciliano, que abraça Rosa com as duas mãos e dá-lhe espessura dramática e uma expressividade ímpar, o arranjo sonoro, a banda-sonora e o trabalho visual (nomeadamente na fotografia, na gradação de cores, etc) caminham todos de mãos dadas para nos entregar um thriller de vingança que tem no seu melhor a desconstrução psicológica da protagonista e não tanto as suas ações.
Tenso, mas também com incoerências, provavelmente derivadas da junção de várias histórias para criar uma só, “Una Femmina” é, também, um instrumento de análise ao trauma, uma viagem ao íntimo e irracional, onde as emoções – ao invés do raciocínio e lógica – comandam ações e interações maioritariamente tóxicas. E ao usar mais o coração que a cabeça, o clima de ameaça permanente persegue-nos, contribuindo assim para uma imprevisibilidade que nos ajuda a seguir o filme com alguma atenção.




















