Paula (Patrícia Saravy), 40 anos, está à espera do terceiro filho e a passar o tempo numa recém-adquirida e modesta casa de veraneio no litoral paulista, onde ela pretende instalar uma piscina para seus filhos. Quando seus planos se desfazem devido a problemas financeiros, ela se torna cada vez mais sufocada pelo peso de suas responsabilidades. Deixada sozinha pelo marido e lidando com as demandas do filho adolescente, ela confronta suas próprias expectativas e frustrações.
Esta é a sinopse e a trama do filme “A felicidade das coisas” (2021).
A poeta Florbela Espanca dizia que a felicidade é uma coisa tão restrita, que tirar da vida uma parcela mínima desse luzente tesouro, tão ambicionado e tão quimérico, é a maior das loucuras humanas.
A felicidade das coisas envolve as relações familiares e a maternidade, no filme da realizadora de São Paulo, Thaís Fuginaga. Ela nos conta uma história pelo olhar de Paula, uma mulher e mãe que resiste ao desarranjo familiar mesmo diante de muita angústia.
Ela parte da cidade dirigindo um carro, usado, em direção a uma casa de praia, juntamente com a sua mãe, os seus dois filhos (uma menina com cerca de 8 anos e um menino com uns 13 anos de idade), e um terceiro prestes a nascer.
Na praia, Paula insiste por telefone pela presença do marido, Júlio, mas vai percebendo que ele não virá. Um marido sobre o qual sabemos apenas o nome. Um homem fisicamente ausente que não assume sua responsabilidade de marido e pai, mesmo com a sua esposa quase nas vésperas de ter um filho.
Paula, mesmo diante de problemas, teima em continuar as férias à beira mar, numa praia nada atrativa. A casa se localiza não tão distante de um Clube de luxo, ambiente o qual os filhos de Paula tentam usar a piscina e não são aceites por não ter uma cota e não poder pagar uma.
Desse modo a realizadora deixa entrever a inviabilidade de uma família de classe média-baixa aceder a atividades de lazer e desfrutar confortavelmente das férias. E evidencia as diferenças de classes, a relação entre as pessoas abastadas e aquelas que não são, salienta como é difícil a vida para quem não tem condições económicas favoráveis. Fora das telas do cinema, a realidade do Brasil atual nos mostra que, aproveitar das benesses da vida, tem sido cada vez mais restrita a uma minoria.
No início da narrativa de “A felicidade das coisas“, a instalação da piscina ao redor da casa é o objeto principal que movimenta as personagens e as cenas, mas pouco a pouco se desvelam as frustrações de Paula. Percebemos que ela não possui dinheiro para pagar a piscina recém comprada, nem a instalação, e descobrimos que o marido está imerso em dívidas e abandonou a família. Deixou a sua esposa e filhos em desamparo, em desconforto e sem reserva financeira. Ainda assim, Paula persiste em instalar a desejada piscina no fundo da morada, para amenizar o ar quente dos dias de verão.
A realizadora sublinha o peso da maternidade, o fardo que carregam certas mulheres que são mães. No Brasil, (e em muitos outros países) é comum que muitas mulheres assumam sozinhas responsabilidades que são dos cônjuges, mesmo quando têm filhos. Como se o pai fosse necessário apenas para gerar os filhos.

As férias não ajudaram Paula a se afastar dos problemas familiares quotidianos, problemas que parece já estava a viver em São Paulo com o marido, e que a acompanharam. E como se não bastasse, a pressão e a angústia que sofre diante das coisas a resolver, é a vez do filho questionar quando o pai vai ao encontro deles. O adolescente está visivelmente triste, expressa sentir a falta e o distanciamento do pai, fica afetado com o sofrimento da mãe e com a sua impotência para solucionar os entraves que ela vivencia com os filhos. Uma mulher que se vê constrita a ter que resolver tudo sozinha e sem recursos, além de estar psicologicamente fragilizada.
Paula é corajosa, mas não pode contar com a ajuda de ninguém, sem possibilidade de resolução das coisas que não lhe trazem nenhuma felicidade, pelo contrário, perturbam-na. Atada à incertezas, ela vai literalmente empurrando a vida com a barriga.
As responsabilidades da família recaem todas sob as suas costas, que mal aguentam suportar o peso físico do filho que carrega no ventre. Durante todo o filme, Paula está imersa em tumultos interiores e externos.
Há uma cena em que a mãe dela tenta convencê-la de desistir em ter uma piscina, e Paula a repreende: “Mania de achar que a gente não pode ter as coisas“. A verdade é que não podem mesmo, a condição financeira delas não permite.
A mãe de Paula percebe a aflição da filha, sem o apoio do marido e tenta pelo menos manter os vínculos afetivos entre ela e os filhos, apesar de todos os obstáculos.
Paula ginga para cá e para lá buscando inventar algum momento de leveza nas suas férias, o que é pouco possível diante da carga de responsabilidades familiares. Os parcos dias de férias à beira mar, não trouxeram felicidade a Paula. As coisas não foram exitosas, seja no âmbito interno ou externo.
“A felicidade das coisas” lembra um pouco a estética do filme “O Pântano” (La Cienaga, 2001) da realizadora argentina Lucrécia Martel, uma atmosfera de subtil suspense e espera; a espera que o tempo passe, que as coisas se resolvam, mas elas não se resolvem.
Destaco ainda a excelente performance de todos os atores e o som ambiente que pontua e dialoga com o sentimento de desamparo de Paula e seus filhos, uma família deslocada e com as relações debilitadas.
Numa curta ENTREVISTA concedida a equipe da XVII Panorama Internacional Coisa de Cinema, a realizadora Thaís Fujinaga relata que o filme traz conflitos relativos à sua própria família.
O filme abre outras possibilidades de conexões e percepção, para além daquelas que aqui menciono.
“A felicidade das coisas” (2021), é muito bem dirigido por uma realizadora estreante em longas-metragens. Foi rodado em 2019, em Caraguatatuba e na ilha de São Sebastião, no litoral de São Paulo/Brasil. O roteiro é desenvolvido por Thaís em colaboração com os roteiristas-realizadores da Produtora mineira, Filmes de Plástico. Uma ficção em cores, em DCP, com duração de 87min. O filme estreou no International Film Festival Rotterdam, vale muito a pena ser visto!




















