Something Wicked This Way Comes: Macbeth como nunca o vimos, naquele que é o primeiro filme de Joel Coen a solo, a primeira experiência do realizador de “Fargo” sem o seu irmão e colaborador de sempre, Ethan Coen.

A Tragédia de Macbeth”, estreado na plataforma de streaming do gigante tecnológico da Califórnia, a Apple TV+, transpõe para o grande ecrã uma das peças mais icónicas da história do teatro, sublinhando o que de mais intemporal se pode encontrar na obra de Shakespeare. De certa maneira, está nos antípodas do “Macbeth” de Justin Kurzel, a recente adaptação cinematográfica que contava com Michael Fassbender e Marion Cotillard nos papéis principais e que aproximava o imaginário Shakesperiano aos códigos de um realismo ilustrativo e exuberante: aqui tudo é “minimalismo” e “abstração”, numa mise-en-scène depurada, capaz de arrancar ao essencial qualquer coisa de transcendente.

É esse precisamente o lado mais interessante da proposta de Joel Coen, a forma como cruza os ecos de um certo modernismo cinematográfico, com a materialidade dos diálogos de Shakespeare: uma espécie de choque entre um chiaroscuro evocativo do expressionismo alemão e uma impressionante torrente de linguagem, uma justaposição que propõe uma leitura particularmente desoladora dessa grande angústia que é a obsessão pelo poder. Joga a seu favor a presença de dois atores com a capacidade de preencher o “espaço vazio” deixado por Coen: Denzel Washington e Frances McDormand, Lord e Lady Macbeth, um casal consumido por forças que os asfixiam: para quem tudo quer controlar, é o próprio destino quem os controla, manipula, destrói.

É verdade que o recorte mais abstrato, quase “iconográfico”, que atravessa o filme de ponta a ponta, ameaça por vezes transformar este “Macbeth” numa experiência cinematográfica monolítica, demasiado fixada na “prisão” em que decidiu fechar os seus personagens e, no limite, o próprio filme. Mas mesmo essa ressonância entre forma e conteúdo raramente deixa de exercer um fascínio particular, justamente pela maneira como o mundo exterior é apagado, cedendo protagonismo a uma poética com o fulgor de um autor com praticamente 40 anos de carreira.

Para um filme com tamanha fidelidade à palavra do texto original, esse é também uma qualidade assinalável: como se a tensão constante entre o que de mais narrativo há no texto Shakesperiano e o rigor da cinematografia, nos remetesse para um fora de campo com uma intensidade e profundidade com uma força que transcende aquilo que vem à superfície na dramaturgia do filme.

Pontuação Geral
José Raposo
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