São poucos, e ainda bem, os realizadores que se atrevem a reeditar o estilo inconfundível de Wes Anderson e a adaptá-lo às suas próprias estratégias. Na “Vida Extraordinária de Louis Wain” o realizador Will Sharpe não se propõe a imitar o mestre da “quirkiness” norte-americana, mas é nitidamente inspirado por ele. Não se trata necessariamente de uma inspiração do âmbito audiovisual (embora também haja alguns elementos estéticos “emprestados”), mas principalmente uma ligação “espiritual”. Os espectadores entenderão intuitivamente esse paralelismo, pois a energia e o sentido de humor deste filme enquadram-se bem no universo cinematográfico de Anderson.
Aqui, Benedict Cumberbatch é Louis Wain, um prolífico ilustrador especializado no mundo animal que tem de suportar financeiramente a sua mãe e seis irmãs. A chegada à casa Wain de uma nova governanta (Claire Foy) responsável por educar as irmãs mais novas afetará eletricamente Louis, que depressa se apaixona pela mulher. O nível de formação e o temperamento de Emily espelham o seu e ambos “clicam” naturalmente – para escândalo de todos, dado que Emily se encontra vários escalões sociais abaixo do de Louis. Ignorando as normas sociais da época vitoriana, o casal oficializa a relação e muda-se para o campo, onde vive algum tempo em felicidade.
A química entre Cumberbatch – que acaba de ter uma das melhores atuações da sua carreira em “The Power of the Dog” – e Foy é autêntica, embora a subtileza da atriz a torne a verdadeira âncora do filme, o seu centro de estabilidade, ao passo que Cumberbatch tem um desempenho mais caricatural. Dadas as particularidades de cada personagem, isso era ainda assim expectável, e a verdade é que o ator inglês também imerge profundamente dentro da sua personagem.
Louis Wain foi de facto um artista que ganhou popularidade no final do século XIX e nas primeiras décadas novecentistas, sendo reconhecido pelo seu estilo excêntrico e pela sua obsessão em pintar gatos antropomorfizados nas mais variadas situações. Segundo a narrativa do filme, essa obsessão começou quando a sua mulher, que sofria de cancro da mama e morreu poucos anos depois do casamento, acolheu um gato de rua a que chamou Peter. A figura do gato seria então, durante o resto da sua carreira, emblema do amor e estima pela falecida Emily.
A primeira metade do filme, mais eufórica, dedicada a retratar a vida dos Wain e a paixão de Louis, exubera um charme contagiante e atinge alguns momentos de beleza. Uma das marcas da realização de Sharpe e do seu diretor de fotografia, Erik Wilson, são as constantes referências visuais a aludir à pintura europeia, desde Pierre-Auguste Renoir a René Magritte. E os resultados são de um expressionismo impactante, em que a luz parece mesmo uma pincelada no ecrã.
Outro efeito tem a segunda metade do filme, que se alonga demais e se torna progressivamente mais convencional e previsível. O guião aplica estruturas narrativas clássicas e segue demasiados lugares-comuns, sendo o principal marcado pela linearidade da história, que segue o percurso chato da solidão–amor–morte–enlouquecimento. A dispensável narração off (com a simpática voz de Olivia Colman) também é um elemento desestabilizador, e o filme beneficiaria de um corte geral que o encurtasse em cerca de 20 minutos.
Tendo tudo em conta, o resultado é mesmo assim positivo, porque Sharpe consegue traduzir cinematograficamente aquele elemento tão abraçado por Wain e pela sua época: a eletricidade. O artista vê-a como a explicação para todos os fenómenos, desde o comportamento felino aos grandes empreendimentos humanos. Para Wain, a eletricidade é uma explicação, é uma solução (por exemplo para a doença mental da sua irmã mais nova) e é também uma sensação, estando presente sensivelmente em todas as situações e na vida afetiva humana em geral. É esse sentimento eletrificante que também o espectador consegue sentir ao assistir a esta obra.
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Um aparte: porque teimam as distribuidoras em traduzir erroneamente os títulos dos filmes? No original lê-se «The Electrical Life of Louis Wain» e não se encontra razão para a mudança do adjetivo “elétrica” para “extraordinária”, tanto mais quando esse qualificativo fazia referência a um tema transversal e central a toda a obra. Marketing sensacionalista ou mera falta de rigor?






















