Expansão de uma curta-metragem homónima de 2019, também filmada por Philip Barantini e protagonizada por Stephen Graham, “Boiling Point” leva-nos a um restaurante de topo, durante uma única noite, acompanhando o espectador a dinâmica dos empregados e dos clientes enquanto um Chef navega entre problemas pessoais e profissionais no meio da azáfama quotidiana.

Seguindo a dinâmica de um plano sequência contínuo durante os seus 90 minutos, técnica que desde “Timecode” (2000) de Mike Figgis e “A Arca Russa” (2002) de Aleksandr Sokurov ganhou inúmeros adeptos, não só no que diz respeito a planos sequência ‘reais’, como vimos em “Fish & Cat”, “Utøya: July 22” ou “Blind Spot”, mas também em filmes editados para darem essa sensação (‘1917’, de Sam Mendes), “Boiling Point” apresenta-se permanentemente como uma jornada farta em adrenalina a caminho do ponto de ebulição do seu protagonista, um Chef que vê a sua vida profissional ruir em curto espaço de tempo.

E desde os primeiros instantes não se augura uma boa noite no restaurante retratado, isto porque logo a abrir a inspecção detecta problemas de higiene e escrituração. A partir daí, todos os pequenos problemas (empregados chegam atrasados, outros estão simplesmente a cobrir ausências) acumulam-se como flocos de neve que levarão a uma avalanche de problemas e conflitos, não só entre empregados e clientes, mas principalmente entre os colaboradores do espaço de restauração, vindo à tona todo o género de explosões emocionais. 

Se a forma do plano sequência permite-nos acompanhar o filme numa posição permanente de na “corda-bamba”, e confere à ação uma intranquilidade e nervosismo latente, isso necessariamente não lhe dá menor previsibilidade, como se percebe logo quando um Chef da televisão (Jason Flemyng) traz uma crítica gastronómica (Lourdes Faberes) para jantar, ou quando alguém diz vincadamente para se ter cuidado com as alergias que uma das visitas tem.

No seu melhor, “Boiling Point” tem Stephen Graham, um ator que se tornou o rosto mais marcante do cinema (This is England) e televisão (The Virtues) de Shane Meadows. O inglês oferece mais uma interpretação sumptuosa, repleta de fragilidades e responsabilidades, agarrando e levando espectador consigo na sua catábase.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
boiling-point-stephen-graham-e-um-chef-a-caminho-do-ponto-de-ebulicaoNo seu melhor, “Boiling Point” tem Stephen Graham, um ator que oferece mais uma interpretação sumptuosa, repleta de fragilidades e responsabilidades