No último Festival de Locarno, numa entrevista a Phil Tippett sobre o seu projeto “Mad God”, questionei-o sobre como ele sabia que o seu filme estava realmente terminado depois de ter trabalhado obcessivamente três décadas nele. A sua resposta foi esclarecedora: “soube que estava terminado quando fui internado numa ala psiquiátrica“.

As tarefas e trabalhos que se tornam jornadas de obsessão, capazes de produzir transtornos psicológicos graves, são algo que o cinema aborda com alguma frequência (do desporto à arte), e é praticamente impossível não nos lembrarmos de “Whiplash” (onde Lauren Hadaway trabalhou na montagem do som), ou “Black Swan”, neste seu filme em estreia na realização, “The Novice”, no qual o ultrapassar as barreiras físicas no caminho à perfeição ganham contornos de obstinação e masoquismo.

No centro desta impressionante estreia da cineasta, que a própria admite ter contornos semibiográficos, está Alex (Isabelle Fuhrman, deslumbra entre vários estados de alienação), uma jovem que encontra no remo coletivo o ambiente de conquista que a levará numa jornada de afirmação. Fisicamente mais débil que as colegas, a novata Alex entra numa rota obstinada para entrar para a equipa da sua escola e progressivamente subir na hierarquia de comando, deixando para segundo plano tudo o resto, sejam os estudos, seja a relação que assume a determinado momento com uma professora assistente.

Mais “Black Swan” que “Whiplash“, até pela vertiginosa descida ao inferno pessoal de ambas as protagonistas, Hadaway confina a sua análise apenas e só a uma equipa de remo, não entrando assim numa jornada de busca do sucesso e análise da competitividade na sociedade atual. Ao invés, e ao reduzir essa escala, ao preferir o micro ao macro, ela entrega um filme que fundamentalmente estuda Alex, individualizando-a e não a enfiando no cliché do tradicional underdog destinado a algo “bigger than life” . E ao particularizar e focar esse estudo, Hadaway observa também como o masoquismo joga um papel essencial numa jornada física e psicológica, pois Alex, mais que superar as outras, quer se superar a si.

Uma nota relevante para o trabalho atrás das câmaras de Hadaway nessa exploração do corpo e mente de Alex, filmando-a frequentemente ao detalhe, sendo particularmente fulcral o uso do slow motion para transmitir ao espectador a maquinização de um corpo e mente, onde o suor oleia uma construção individual que a leva ao mais profundo isolamento.

E é impossível não falar do brilhante trabalho de Todd Martin na direção de fotografia, ou a montagem (repleta de cortes rápidos), entregue à própria Hadaway e a Nathan Nugent, que juntamente com a música de Alex Weston criam um thriller psicológico onde a maioria veria apenas um drama ou uma história de superação.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
the-novice-obstinacaoLauren Hadaway cria um thriller psicológico onde a maioria veria apenas um drama ou uma história de superação.