O nosso imaginário cinematográfico está repleto de referências a comboios e linhas de ferro. Tudo começou, de facto, com um comboio: aquele que chegava à estação de La Ciotat, gravado pelos irmãos Lumière em 1895. Depois, veio o genial Buster Keaton com o seu “The General” (1926), passando por Alfred Hitchcock, que filmou o cómico e misterioso “The Lady Vanishes” (1938), e Billy Wilder, que colocou Marylin Monroe a bordo das carruagens de “Some Like It Hot” (1959). Mais recentemente, um dos casais mais emblemáticos do cinema conheceu-se na ferrovia europeia – Jesse e Céline em “Before Sunrise” (1995) –, e a viagem mais aguardada por toda uma geração de fãs de Harry Potter era a bordo do expresso a caminho de Hogwarts. Até os grandes blockbusters já passaram por aqui, como Denzel Washington em “Unstoppable” (2010).

Esta é apenas uma amostra do vasto conjunto de filmes que organizam a sua narrativa e o seu universo imagético a partir das linhas de ferro. Agora, o realizador finlandês Juho Kuosmanen inspira-se na intimidade de um compartimento de carruagem partilhado para acrescentar mais um título a esse catálogo. É no “Compartimento N.º 6” que Laura, uma finlandesa a estudar arqueologia em Moscovo, conhece Ljoha, um trabalhador braçal russo. A história é adaptada do romance homónimo da finlandesa Rosa Liksom, e o filme venceu o Grande Prémio do Júri em Cannes – Kuosmanen já havia ganho o certame Un Certain Regard, em Cannes, com o seu “The Happiest Day in the Life of Olli Mäki” (2016).

O que se desenvolve dentro deste compartimento não é tanto um romance senão um encontro entre duas pessoas que, por entre todas as suas diferenças, formam uma forte ligação sentimental. Inicialmente, Laura evita Ljoha e acha-o repugnante, mas aos poucos vai diminuindo as suas defesas e encontra no parceiro de viagem uma companhia ingénua, quase infantil, e uma vontade de agradar. O enredo situa-se algures nos anos 1990, antes de toda a gente estar sempre contactável e com o nariz nos telemóveis. Laura, que deixou para trás, em Moscovo, a sua namorada Irina, sente um tipo de solidão e de isolamento face aos outros que hoje já praticamente não existe, pelo menos nos mesmos moldes. Ela está verdadeiramente sozinha durante a viagem, e o companheirismo que desenvolve com Ljoha é, antes de tudo, uma espécie de fraternidade. É por isso que, quando avança numa direção mais romântica, Ljoha reage com estranhamento, pois a ligação que ambos sentem não é sexual – trata-se de uma amizade.  

A direção artística, a cargo de Kari Kankaanpää, e a fotografia de Jani-Petteri Passi fazem um excelente trabalho a moverem-se por este compartimento e por todo o comboio para retratar os avanços, as paragens e os recuos desta relação. A imersão nos anos 90 é total, e a câmara na mão permite que nos situemos no comboio quase como passageiros ao lado de Laura e Ljoha. O frio tão caracteristicamente russo infiltra-se nas imagens, mas há um calor humano que emana das personagens, criando uma atmosfera ríspida e afetuosa ao mesmo tempo. Os dois atores têm um certo charme infantil, amuam, brincam, lutam e magoam-se como se fossem dois pequenos irmãos.

Esta é, acima de tudo, uma história de afetos e de sentido de humor sobre como dois estranhos rapidamente encontram um terreno humano comum que os aproxima como se cada um fosse a solução para o problema do outro. Kuosmanen estrutura o filme a um ritmo conscientemente lento, em que a falta de ação é para ser sentida justamente como isso: um tédio que advém de não haver nada para fazer, o que obriga as personagens a inventarem para si próprias o que fazer uma com a outra. Por isso, o destino deste comboio pouco importa (e, de facto, Laura chega à estação final apenas para ser desiludida), porque é na viagem que se encontra um novo caminho.  

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
Jorge Pereira
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