A estreia na longa metragem da realizadora Nathalie Biancheri aborda a complexa teia dos laços de sangue que têm o poder de destruir famílias. “Nocturnal“, um filme sombrio e de conversas em surdina, meio ditas meio sussurradas, conta a história de Laurie (Lauren Coe), uma adolescente de 17 anos recentemente regressada ao Yorkshire depois de uma longa temporada passada em Dublin e que se cruza com Pete (Cosmo Jarvis), um homem mais velho e com a vida de pantanas, com os dias feitos de biscates e de impulsos à flor da pele. É com ele que a noite do filme se abre, num quarto de luz vermelha, num momento de uma intimidade com pouca graça: como se tudo fosse passageiro, supérfluo, opaco. “This could be so much more“, ouvimos à saída e quem o diz é a companheira de Pete, um corpo noturno que afinal também deseja mais qualquer coisa. É num destes intervalos entre o peso do quotidiano e a fuga da noite que Pete se cruza com Laurie, um encontro que prefigura qualquer coisa de trágico.
O filme de Biancheri não escapa propriamente ileso da familiaridade de certos esquemas narrativos, como o é o amor proibido entre uma menor de idade e um homem com praticamente o dobro da sua idade, mas sabe retirar partido de um desconforto constante para colocar o espectador numa posição de tensão. Devemos isso à escolha de atores, com particular destaque para Cosmo Jarvis, um ator que transporta consigo uma violência subterrânea que contamina as suas relações, capaz de aliar essa “fisicalidade” a uma presença que nunca deixa de transparecer uma pura vulnerabilidade infantil. Mas também pela forma como Biancheri olha para o espaço e como daí retira uma expressividade que vai ao encontro da interioridade dos personagens: é um Yorkshire à beira mar, mas cercado por uma paisagem industrial, uma respiração negra e pesada que parece amarrar Laurie e Pete a um destino que simultaneamente os precede e os transcende, que aproxima e afasta.
É um primeiro filme interessante, que mesmo quando nos traz à memória o universo imagético e conceptual de uma realizadora como Andrea Arnold nunca deixa de desenhar os contornos de um cinema com um cunho pessoal.




















