Conterrâneo do doído “Piranhas – La Paranza Dei Bambini”, de Claudio Giovannesi (prémio de melhor guião da Berlinale 2019) e igualmente centrado no binómio Crime + juventude, o drama com montagem de thriller “A Chiara”, primeiro dos 14 concorrentes à Pirâmide de Ouro de 2021 a ser exibido no 43º Festival do Cairo, vale por um diálogo: “Aquilo que chamas de mafioso, eu chamo de ser um sobrevivente”.
A sua protagonista, a adolescente Chiara (vivida por Swamy Rotolo), parece atribuir um status de verdade à frase acima quando percebe a maneira como o seu pai relativiza a sua trajetória no crime. Para um autoproclamado provedor como ele, é justificável arrancar euros dos outros meios ilícitos, pois a fome justifica todos os meios. Não se pode reclamar de barrigas vazias na festa que ele dá para comemorar os 18 anos da sua filha mais velha no filme. Mas ele, que cresceu em ruas abrutalhadas pela Omertà das grandes famílias mafiosas, sabe que a escassez pode se abater no lar daquele que preferir ser a cigarra à formiga, ainda mais na lógica do submundo. Mas o empenho do diretor Jonas Carpignano, ao nos contar essa história, é problematizar os maniqueísmos do pai de Chiara.
Não por acaso, o ponto de vista que ele adota para o seu novo filme é a experiência afetiva da menina. O erro é não ter dado à personagem dela – que Swamy defende como pode – mais camadas capazes de ilustrar a sua angústia, e mesmo de reproduzir as inquietações do adolescer.
Centrado na transformação que se abate sobre uma jovem ao saber de onde vem o soldo mensal da sua figura paterna, “A Chiara” encontra, no seu guião, uma ampla varada para se refrescar das mesmices dos filmes de gangsters, mas esbarra também num quartinho dos fundos, mal iluminado, onde reduz as suas potências a rascunhos arquetípicos.
Se, por um lado, o filme nos fisga e nos mantém eletrizados pela tensão com que conduz os contratempos de uma miúda contra um sistema corrupto, por outro, ele nos aborrece com o seu acabamento pouco esmerado na dramaturgia das personagens. Todos parecem arremedos, menores do que as situações de perigo em que se envolvem.
Incensado em Cannes, há quatro anos, por “A Ciambra” (produzido num acordo entre Martin Scorsese e Rodrigo Teixeira), Carpignano destacou-se por evitar artimanhas históricas do neorrealismo, no trabalho com atores não profissionais, e investir menos nos exotismos das suas vivências (ou origens) e testar a relação deles com formatos de género, em especial o drama geracional.
Aqui, repete o dispositivo, mas apostando mais em elementos pop da cartilha do “gangsterismo”, com sequências de fuga e de intervenção policial. Essa aposta dá ritmo, mas não vai além da forma, estilizada por uma fotografia histérica (de Tim Curtin), que se agita numa aeróbica nervosa, pouco reflexiva.




















