É incontornável falar da Nouvelle Vague e do cinema de John Cassavetes no novo filme de Ciro De Caro, “Giulia”, ele que regressa depois de dois outros filmes – “Spaghetti Story” (2013) e “Acqua di marzo” (2016) – onde uma juventude inquieta volta a mostrar as suas garras e incertezas.
Acompanhado na escrita por Rosa Palascian, que também atua e já tinha colaborado com o cineasta italiano em algumas curtas-metragens, os tempos de precariedade são canalizados igualmente para a personagem de Giulia, uma mulher cuja bagagem e vida parece caber toda num saco plástico, além de não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Na verdade, ela parece caminhar por um trilho ilusório de perseguição de qualquer coisa, algo que dizem ser a felicidade, movida frequentemente por sentimentos e desejos contraditórios.
Rosa Palascian lembra Gena Rowlands nessa luta quotidiana rumo ao incerto, apresentando para o espectador várias indecisões e ações libertárias que facilmente passam por neuroses de uma mulher presa entre expetativas e desejos. Será que quer ser mãe? Ter uma relação? Ou simplesmente ser amada? Provavelmente tudo, mas também nada, pois o filme de Ciro De Caro não entrega respostas nem tem ambições de tal, nem tampouco se atreve ele mesmo a se refugiar numa zona de conforto que encerre, de alguma maneira, uma trama. E nessas indecisões, até aqueles que pareciam mais certos do que querem na vida, neste caso os jovens que acolhem a certo momento Giulia, começam a vacilar, mostrando o cineasta que a precariedade dos tempos que vivemos é fundamentalmente emocional.
Claro está que a sensação que se fica é que todos nós conhecemos alguém assim, mas Ciro – com felicidade ou não – remete a ação do filme aos tempos de pandemia, forçando o espectador a lidar com os traumas modernos, capazes de provocar tantos calafrios como gargalhadas. Isso mesmo acontece quando o álcool em gel invade as mãos dos protagonistas, num ato tão necessário e orgânico como o respirar.
E o realizador faz tudo com o uso de cores vivas e um dinamismo de uma câmara, ora na mão, ora estática, que parece seguir o estado mental efervescente da nossa protagonista, onde liberdade e capricho muitas vezes se confundem, colidem, atraem, mas também criam repulsa.

















