O que é uma cidade, senão as pessoas?”, questionava William Shakespeare em “Coriolano” no século XVII, pensamento que não era totalmente novo, mas que refletia a forma de pensar as cidades nos séculos que seguiram, em particular no XX e XXI, em que uma obra arquitetónica não terminaria em si mesma, mas estaria integrada num conjunto.

Era uma vez em Calcutá” faz uma radiografia de uma cidade, mas a partir das suas gentes e a forma como elas  – vividamente – moldaram o espaço e nisso, consequentemente, a sua vida quotidiana. Há muito que Aditya Vikram Sengupta tem impressionado pela qualidade e destreza estética do seu trabalho, mas basta lembrar os seus anteriores “Labour of Love” ou “Jonaki” para entender que “Era uma vez em Calcutá” é o seu primeiro filme totalmente movido pelo enredo, dominado pelos diálogos, ainda que sem perder a sua força estética, vagueando frequentemente por entre imagens reais que às vezes se confundem com surreais, como as que vemos de um viaduto por concluir ou de um simbólico dinossauro que atravessa o caminho deste futuro.

De certa maneira, este seu novo filme, estreado na secção Orizzonti de Veneza, é uma continuação orgânica do trabalho do cineasta, que tal como outros (Chaitanya Tamhane, por exemplo), no seu olhar sobre a Índia, observa e reflete sobre a transição complexa entre passado, presente e futuro, onde o tradicional e o moderno esbarram de forma complexa, atingindo o nível espiritual. E é curioso como “Era uma vez em Calcutá” aborda o final de um ciclo e o começo de outro, o fim das coisas e o seu renascimento, reinvenção e nova forma. E isso sente-se no espaço urbano, mas também nos seus protagonistas: uma ex-atriz afastada do marido, apesar dele viver na porta ao lado, que procura seguir em frente; e um solitário depressivo que se apega ao que lhe resta, um cineteatro moribundo.

É no vai e vem entre os desejos, arrependimentos e tentativas de renovação, onde a própria cidade é uma personagem imensa, uma entidade viva em permanente transformação, que “Era uma vez em Calcutá” se movimenta e flui, mudando também ela a perceção temporal do “Era uma vez…“, pois a rapidez das transformações na vida das pessoas e das cidades é tal que esta frase que servia para contar uma história de há muito tempo já não reflete um passado tão longínquo, mas mais imediato, ou até um presente que já o “era” antes mesmo de o ser.

No final, Aditya Vikram Sengupta consegue assim fazer aquela que é a sua obra cinematográfica mais acessível, sem com isso perder a força imagética que caracteriza o seu cinema, no qual as relações humanas (ou a ausência delas) voltam ter destaque e a ser o motor de todas as transformações: as pessoais e coletivas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
era-uma-vez-em-calcuta-finais-e-recomecosUma continuação orgânica do trabalho do cineasta, que observa e reflete sobre a transição complexa entre passado, presente e futuro