As alas psiquiátricas sempre serviram para silenciar e isolar do resto da sociedade pessoas que saiam da esfera da dita “normalidade” ou que revelavam serem um perigo para elas mesmas e para outros. Apesar das psiquiatrias, asilos e hospícios serem locais onde efetivamente muitas doenças mentais eram realmente bem diagnosticadas (esquizofrenia, bipolaridade, etc), eles também serviam para colocar todos aqueles que de alguma forma escapavam aos padrões políticos, sociais e morais da sociedade,  fossem elas mulheres a celebrarem a sua sexualidade (vejam a história da “histeria feminina”, ou o mero desejo sexual tratado como ninfomania), alegadas “desordens” de identidade sexual (homossexualidade, transexualidade, etc), ou militantes políticos, como aconteceu no bloco de leste quando pessoas contrárias ao regime comunista eram enclausuradas, como se de uma doença mental se tratasse. A “psiquiatria política” era aplicada comummente no bloco soviético, tão comum como os “campos de reeducação” que proliferaram por todo o mundo e ainda hoje em dia persistem na China, por exemplo para muçulmanos, integrados na dita “campanha de doutrinação”.

Erasing Frank” de Gábor Fabricius foca-se nisso, na “psiquiatria política”, de ideias discordantes tratadas como “doença mental”, seguindo de perto, na Budapeste de 1983, Frank (Benjamin Fuchs com carisma), um jovem cantor de uma banda punk da cena underground que expressa em concertos e outras ações a resistência e opressão o regime totalitário em que vivia.

Esta vertente musical, a energia e o próprio preto e branco que Fabricius aplica no seu filme com a ajuda do diretor de fotografia, irremediavelmente nos levam mentalmente a “Leto” de Kirill Serebrennikov, que também partilha semelhanças temáticas, mas ao contrário da filme russo, o cineasta húngaro carrega a sua câmara frequentemente atrás do seu protagonista, gerando frequentes close-ups pelo meio, lembrando László Nemes em “O Filho de Saul“. Tudo isto transmite ao espectador uma completa sensação de claustrofobia sobre a personagem, sempre vulnerável ao olhar de alguém, incluindo o espectador, que se torna também ele um voyeur das suas ações. Claro está que mentalmente, a degradação mental de Frank começa realmente a surgir, especialmente depois dele descobrir no local uma jovem paciente (Kincsö Blénesi) que tem um segredo para contar. 

A intensidade e febrilidade da ação, sempre com uma dose generosa de paranóia que encadeia o espectador com todo o vigor, aliada a boas prestações, um guião cuidado e uma técnica apurada, transformam “Erasing Frank” num exercício notável e de denúncia das atrocidades cometidas por um regime totalitário, transformando Gábor Fabricius num caso sério no cinema atual, digno de seguir com bastante atenção. Esse ato do acompanhar no futuro vem igualmente porque ao falar do antigo regime comunista, fala igualmente dos novos tempos, onde uma Hungria de extrema direita recomeça a “carimbar” muitos dos desviantes ideológicos como alienados dignos de serem silenciados para não “promoverem” comportamentos que saem da suposta normatividade. Sim, é um filme sobre o passado, mas também sobre o presente, tal como os de Kirill Serebrennikov o são.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
erasing-frank-uma-obra-notavel-contra-o-totalitarismoA intensidade e febrilidade da ação, sempre com uma dose generosa de paranóia que encadeia o espectador com todo o vigor, transformam “Erasing Frank” num exercício notável