Estreou no Festival de Veneza do ano passado este filme extraordinário sobre vazio existencial, fragmentação de laços afetivos e perda de vínculos com a vida. O título refere-se ao jogo da baleia azul, inventado por um jovem russo há alguns anos e que, alegadamente, levou ao suicídio uma centena de adolescentes pelo mundo afora até ser encerrado pelas autoridades por volta de 2017.
No jogo, depois de 49 desafios de variados graus de inocuidade, mas que incluem frequentes automutilações, chega-se ao 50º – onde os jogadores (as baleias azuis) dão o último passo – o suicídio.
O filme é inspirado num acontecimento ocorrido no México em 2018. O espectador encontra os jovens Elisa (Karla Coronado) e Félix (José Antonio Toledano) no desafio 45 – e começa com um “travelling” que acompanha o rapaz a pôr gasolina num carro e a incendia-lo. Depois de tirar a foto, manda ao “administrador”. Missão cumprida. Mais tarde ele vai conhecer a outra “baleia azul” …
O que impressiona na obra de Jorge Cuchi é a profundidade e a precisão com a qual radiografa a subjetividade e o mundo ao redor dos potenciais suicidas do filme. Ao negar os caminhos do drama sentimental, das “explicações” moralistas e das lógicas simplistas, o cineasta e coargumentista conseguiu penetrar no universo que retrata e por lá circular obedecendo as suas regras.
Em poucos minutos o filme explica o “background” dos jovens, o seu ambiente familiar “normal” e inócuo. Os adultos, marcados por uma comunicação ineficaz ou simplesmente ausentes, são mostrados de costas ou sem rosto na maior parte do tempo; quando não estão absorvidos nos seus próprios interesses, podem ser ouvidos nas suas falas inúteis e desconectadas da realidade “mental” dos jovens.
Os garotos falam pouco, a menina responde a quase tudo com “mais ou menos” e ele com “OK”. Neste universo de sentimentos tépidos, todas as reações são artificiais e verdadeiros sentimentos têm que ser provocados – preferencialmente com ações drásticas. No mesmo dia no qual desajeitadamente se beijam (a relação entre ambos dificilmente pode ser caracterizada como “apaixonada”), tinham provocado um aparatoso acidente de trânsito e baleado um homem. Depois seguem a vida como se nada tivesse acontecido.
Com “links” remotos com o magnífico “Targets”, obra de Peter Bogdanovich pioneira ao retratar a violência como única forma de sentir-se vivo, o poderio do drama de Cuchi vem do facto de que este universo está próximo do quotidiano. Os jovens não são psicopatas com agressivos distúrbios mentais; são pessoas comuns, deprimidas, solitárias e sem razão para viver.
Tecnicamente a opção é por um registo lento (não contemplativo), que constrói a realidade dos protagonistas com pequenas nuanças (os olhares indecisos, os diálogos fraturados), mas que não escusam de utilizar uma (boa) banda sonora como recurso narrativo. “50” não é um exercício experimental fútil que dialoga com o próprio umbigo, mas antes uma poderosa descida ao inferno da adolescência. Ou, pelo menos, daquela marcada pelo isolamento social, pela falta de afetividade, de desejo e onde as redes sociais preenchem o espaço da comunicação interpessoal falhada.




















