Já quando assinou em 2016 o intenso “Violação de Confidencialidade”, Thomas Kruithof mostrava o seu interesse pelos jogos de bastidores e os meandros da política, atuando igualmente numa vertente psicológica de como os seus agentes se movem por entre as sombras e a luz, sempre com consequências imediatas para a sua vida quotidiana.

Mas se nessa obra protagonizado por François Cluzet o escopo da acção implicava um grupo de sequestrados em terras estrangeiras, e envolvia jogos menos claros dentro da política internacional, em “Les Promesses” – em competição na Orizzonti do Festival de Veneza – o foco é a administração local, os seus agentes políticos e um caso bicudo por resolver num bloco de apartamentos em péssimas condições, algures nos subúrbios de Paris.

Isabelle Huppert e Reda Kateb são o centro de todas as atenções. Ela é Clemence, líder de uma autarquia a encerrar o seu segundo e último mandato. Ele é Yazid, o seu fiel conselheiro, preparado para tentar resolver qualquer problema, mas já ta pensar em prosseguir o seu trabalho com a pessoa que o partido vai nomear para o lugar de Clemence.

Administração central e local confluem e atropelam-se quando é posta em consideração uma remodelação governamental que poderá incluir Clemence nas suas fileiras, estando ainda em cima da mesa uma eventual recuperação urbana do bloco de apartamentos através de dinheiros nacionais. Tudo se vai emaranhar num jogo de poder, indecisões e questões sociais que afectam principalmente os habitantes do espaço degradado, os quais, após anos e anos a ouvirem promessas, deixam de acreditar no que os políticos dizem e param de pagar – em protesto – as rendas. Essa ação servirá como rastilho para tudo o que se segue, um novelo engenhoso de Kruithof que parte de uma pequena rebelião numa zona residencial para chegar ao topo da hierarquia política de um país.

Huppert e Ketab vendem carisma e vão preenchendo as suas personagens com vigor e paixão, havendo claramente no ar, ao contrário do que é apanágio no cinema europeu e americano tradicional, uma maior esperança que ainda existem figuras intransponíveis nos seus valores e que, pasme-se, cumprem as promessas, mesmo que isso signifique o final das suas carreiras nessa área.

Movendo-se assim entre o drama e o thriller, Kruithof elabora um filme que nunca esquece o seu tom humano, ciente das suas críticas, mas também elogios, os quais se balançam entre jogos de poder complexos que mostram que por mais pequena que seja uma decisão tomada localmente, existe toda uma instrumentalização e manipulação nas sombras entre dezenas de figuras dentro das esferas partidárias.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
les-promesses-isabelle-huppert-e-reda-kateb-brilham-em-intenso-thriller-politicoMovendo-se assim entre o drama e o thriller, Thomas Kruithof elabora um filme que nunca esquece o seu tom humano