Há um momento no filme biográfico sobre o atleta checo Emil Zátopek que cristaliza uma máxima de sucesso. A certa altura, durante a festa de casamento entre Emil e a lançadora de dardo Dana (respetivamente, Václav Neuzil e Martha Issová, duas verdadeiras estrelas locais), o par esconde-se debaixo de uma mesa e inscreve a seguinte máxima de vida numa base de copos: “nunca me tornar maçador”.
Talvez não seja exagerado associar essa expressão ao próprio filme de David Ondrícek, já que os 130 minutos são cosidos por um cativante entretenimento ligeiro, com a particularidade de celebrizar um mimetismo desportivo com a maior referência mundial no seu ramo. Mais do que justificada, portanto, a sua escolha para a abertura da 55ª edição do KVIFF. Além disso, o que não surpreende, a conquista do prémio do público. Algo que já parecia antecipado com toda a excitação na primeira apresentação ao público, lotando a sala do Hotel Thermal, coração do festival, com mais de 1300 lugares.
Aliás, o tom de ‘cruzeiro’ que se sente ao longo do filme, talvez comparável a uma corrida de longo curso, pode ser justificado pelo facto de Ondrícek dominar completamente o tema e a vida de Zátopek, o histórico campeão com uma forma particularíssima de correr (as suas caretas são famosas!), além de ser o único atleta a vencer três medalhas de ouro (nos jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, nos 5 km, 10 kms e maratona, na primeira vez que participava em tal prova). Até por se tratar de um projeto de longa gestação (por duas vezes adiado), permitindo-lhe inclusive fazer um documentário sobre o campeão checo, contemporizando com as nuances ou os insondáveis compromissos políticos que levaram Emil a pactuar com o regime soviético na altura em que ocupava a Checoslováquia, e a tornar-se mesmo uma voz de exaltação para o seu povo. Não esquecendo, naturalmente, as razões pelas quais o fez – sabendo que de outro modo poderia nunca mais vir a correr em provas internacionais -, embora recordando também os momentos em que sublinhou o seu patriotismo, por exemplo, quando se recusou a acompanhar a comitiva a Helsínquia ao perceber que o companheiro Stanislav Jungwirth ficava para trás, por o seu pai estar numa prisão comunista.
Ultrapassando estas questões, por certo merecedoras de uma assertiva reflexão à luz da época, é fascinante acompanhar a figura de um homem que exalta o estímulo da perseverança e a forma como passou esse legado às gerações que o sucederam, sobretudo pela forma qualitativa como lidavam com o vale do desaire desportivo, como navegava os altos e baixos do seu casamento e como lidou com o seu final de carreira. Aliás, esse estímulo acompanha todo o filme pela a visita que o recordista australiano Ron Clarke (James Frecheville) faz a Zátopek, em 1968 (no mesmo ano em que o país é invadido para suster as reforças de Dubcek), após perder a medalha ouro (seria a primeira da sua carreira) na derradeira hipótese vencer de prova de 10 kms nas Olimpíadas do México em 1968. No final dessa semana de comunhão, o campeão checo ofereceria ao amigo australiano um presente “apenas para abrir no avião” na viagem de volta. E que seria uma das suas medalhas de ouro, com a inscrição “por tu mereces”.
É claro que todo o filme está repleto de referências visuais, muitas delas usadas pelo cineasta no seu documentário, permitindo-lhe desenhar o percurso do filme com encenações primorosas dos momentos-chave na vida do desportista. Ou seja, uma prova de longo curso, apenas sobressaltada, menos impulsionada pelos momentos actuais na companhia de Clarke, do que as divergências com a sua mulher Dana, por exemplo quando o acusa de ser egocentrista e usurpar para si todo o protagonismo. No fundo, elementos que confirmam uma história nacional com todos os ingredientes para apelar ao grande público. O que nem sempre acontece. Aqui a merecer a gestão equilibrada de uma grande produção apostada numa figura popular e à inteligência e eficácia para não se ir abaixo antes do final. Inteiramente merecido, portanto, o prémio do público.




















