Ninguém pode acusar o simpático “youtuber” Kurt Kunkle (Joe Keery, de Stranger Things) de falta de iniciativa e empreendedorismo em busca do seu sonho. Desde jovem que ele fantasia ser um “influencer” e passa anos de empenho documentando o seu dia-a-dia à procura de seguidores. Isso é mesmo importante para ele: já bem lançado no filme ele passa por um grupo de sem-abrigos e diz: “olhem para esse gente… não têm existência nas redes sociais!”
Mas, apesar de todos os esforços, a certa altura ele é obrigado a olhar-se no espelho e chegar a mais triste constatação: passados sete anos, ainda é um completo “zero”. E agora? Bom, ainda não é hora de desistir. Há que usar todos os recursos – nem que estes incluam uma água envenenada servida aos clientes do Uber que ele conduz (o “spree” do título). Por outras palavras, uma “live” com assassinatos podia lhe dar finalmente o estrelato.
O realizador norte-americano Eugene Kotlyarenko junta dois elementos muito contemporâneos – o serviço de de “uber” propriamente dito e o universo dos “youtubers”. É este, sobretudo, que interessa mais: embora longe de ser novidade o tema de uma pessoa desesperada por atenção ser rejeitada pela assistência e virar-se psicoticamente contra ela, o realizador pega na forma particular desta vivência no mundo das redes sociais.
O uso de velocidade da edição, das imagens tripartidas e do grande número de informações jogadas ao mesmo tempo são artifícios utilizados para mostrar esse mundo através dos seus próprios recursos e dar-lhe uma assinatura cinematográfica. Mas, mais que isso, servem para sintonizar esteticamente a ideia da inebriante frivolidade e insensibilidade com que anónimos escondidos atrás de “nicknames” arrasam-se uns aos outros – sem em nenhum momento lembrar sobre o ser humano que está do outro lado. Dentro de toda essa indiferença alguns jorros tarantinescos de “ketchup” são perfeitamente orgânicos.
O esforço do cineasta em utilizar artifícios que correspondem a um mundo gigantesco ainda pouco absorvido pelo cinema, sobrevive devido realismo dos personagens e a qualidade dos diálogos e das atuações – fundamentais para que o filme não se perca na sua própria denúncia de esterilidade: A sequência onde três notívagos a caminho de uma festa (Mischa Barton, Frankie Grande, Lala Kent) apanham a fatídica boleia de Kurt é deliciosa.
O realizador é feliz em garantir a simpatia do público para o seu vilão, vivido com empenho por Keery, já que é ele quem carrega o filme; como muitas figuras trágicas das vilanias, Kurt é muito mais simpatético do que aquela que se tornará sua principal antagonista, uma “youtuber” bem-sucedida (Sasheer Zamata). Essencialmente, Kotlyarenko pode investir em formas vindas da internet, mas aquilo que confere humanidade e interesse à sua história são os velhos atributos do “story telling”.




















