Buisness or pleasure? É incontornável a demanda que nos dá as boas-vindas na alfândega à chegada aos Estados Unidos, apesar da resposta poder ser bem mais complexa. Sobretudo no caso de Bella, uma jovem de 19 anos e de lábios carnudos, acabada de chegar da Suécia “para fugir dos suecos”. Ela não tem dúvidas: “prazer” é a resposta pronta. Mesmo que seja com a determinação em tornar-se numa estrela porno em Los Angeles. Ainda assim, a interrogação faz ainda mais sentido, pois permitiu à cineasta sueca de 36 anos com um nome impossível de esquecer, Ninja Thyberg, penetrar bem fundo na indústria do prazer e perceber bem os seus contornos. Talvez essa seja uma das razões que faz desta sua primeira longa metragem transgressiva um verdadeiro prazer em assistir. E pelas razões certas.

Quando Ninja chegou a Park City, em janeiro passado, para apresentar a sua bomba transgressora no Festival de Sundance, era apenas conhecida pelos vários filmes de pequeno formato que vinha fazendo desde 2008. Sobretudo por um deles, “Pleasure“, a curta de 2013 premiada em Cannes na Semana da Crítica, que agora se assume em longa e que troca LA pela sua Suécia. No fundo, a sua tese final sobre as complexas relações de poder num universo dominado pela testosterona. Só que Ninja não aterrou no meio de um dia para o outro. Até porque foi movida por um ativismo feminista, mas que desenvolveu um conhecimento bem mais amplo do erotismo e da presença feminina num mundo de homens ao longo de filmes cujos títulos falam por si: “Hot Chicks” (2014), “Catwalk(2015), “Girls & Boys” (2015).

Apesar da rota de promoção de Bella Cherry (impressionante a estreante Sofia Kappel) ser, afinal de contas, bem semelhante ao mito de Hollywood, por exemplo tão identificado nas várias versões de “A Star is Born“, percebe-se como Ninja irá recusar os clichés do género. Desde logo por assumir um lado gráfico muito pouco usual, talvez demasiado para alguns, mas nunca caindo na vulgaridade.

Importante é perceber onde estamos – na tal conjugação extrema de ‘business’ e ‘pleasure’ – e que esse caminho nos poderá levar aos extremos, mas também quando somos convidados a avaliar o lado altamente profissional do meio. Sobretudo quando Ninja nos presenteia com algumas cenas kinky – ok, sejamos claros, com a primeira cena anal de Bella, ou melhor, um anal duplo, uma espécie de linha divisora para a ‘série A’ – ou quando experimenta os limites da violência e degradação, em cenas difíceis de suportar, embora assumidas pela personagem quando se predispõe a levar mais longe a sua intenção de impulsionar a sua projeção e ascensão nas redes sociais de modo a conquistar o agente que a concretizará.

Percebe-se também que, em termos narrativos, será esse o zénite do filme, e também aceitar o que o desfecho seja um pouco menos surpreendente. A tremenda ousadia temática de “Pleasurepode vir a embaraçar alguns distribuidores, mas o filme merecia, pelo menos, ser visto e, naturalmente, debatido. Quanto mais não seja para se perceber um pouco melhor o interior (e sobretudo desfazer os mitos e incompreensões) desta forma de trabalho que é um prazer audiovisual para muitos.

Pontuação Geral
Paulo Portugal
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