“Em todas as famílias existem segredos, e o meu não é uma excepção. Quando eu era criança tinha um ídolo, a minha tia Adriana. Imitei-a, ao ponto de caminhar e rir como ela. Mas há algum tempo descobri que na sua juventude ela trabalhou para a DINA, a polícia secreta da ditadura de Pinochet, quando eu nem sequer tinha nascido. Hoje é uma fugitiva da justiça, acusada de sequestro e assassinato. Decidi envolver-me no seu passado para realmente a conhecer e depois iniciar uma viagem para a confrontar no local onde ela está escondida. Será possível uma reconciliação?” Lissette Orozco
O excerto acima é a voz da narradora e a sinopse do filme “O pacto de Adriana” (El Pacto de Adriana, 2017), história levada à tela do cinema num documental afetivo-político, narrativa contada por Lissette Orozco (1987-), argumentista e realizadora chilena. Ela aborda quem foi e é a sua tia Adriana Rivas, cujo apelido familiar é Chany. Uma história íntima e ao mesmo tempo coletiva, envolvendo a relação familiar e o escuso passado político de Adriana, durante a ditadura militar chilena comandada pelo General Augusto Pinochet de 1973 a 1990.
A trama vai se desenrolando num jogo de verdades e mentiras. Em 2007, Lissette fica a saber que Adriana Rivas igualmente tem um passado sombrio, a partir daí a documentarista reconstrói a imagem que tinha da sua tia Chany (imagens abaixo).
Rivas foi secretária do General Manuel Contreras (1929-2015), Chefe da DINA – Direção de Inteligência Nacional, polícia política do regime ditatorial do Chile. Mulher que desde 2007 está sendo acusada de ser coautora (juntamente com cerca de 70 pessoas) do sequestro, tortura e assassinato de Victor Díaz Lopez e outras pessoas. Lopez foi subsecretário do Partido Comunista em 1976 e opositor do Estado de exceção chileno. Rivas é acusada de ter participado da temida Brigada Lautaro, organização que tinha como missão deter, torturar, desaparecer e matar membros do Partido Comunista do Chile, opositores do governo Pinochet. Embora Adriana negue as acusações, admite que trabalhou na DINA, participou de festas com os militares, esteve em embaixadas, desfrutou segundo ela, das benesses do poder.
A DINA cometeu graves violações aos direitos humanos.
Em 2009, Contreras foi julgado e condenado a prisão perpétua pelos crimes que cometeu durante a ditadura.
No filme, Lissette desvenda então um pantanoso segredo íntimo da sua tia Adriana, enfrentou problemas familiares e expôs feridas do Estado ditatorial de seus país.
A mãe de Lissette, mesmo sabendo do trabalho sujo que a sua irmã Adriana fez no passado, defende-a nos dias de hoje.
A mãe de Adriana igualmente se manifesta em defesa dela, assim como outros parentes cúmplices do silêncio e da brutalidade cometida por ela.
A narrativa fílmica, o uso da voz off e o modo como a realizadora cria os diálogos entre os envolvidos, explicitam o processo de investigação feito por ela e dão a ver que toda sua família sabia o que Adriana fazia na década de 1970, excepto Lissette, que na época era criança.
Lissette se coloca no filme do início ao fim, expõe suas próprias dúvidas, ouve e mostra diferentes pontos de vista sobre as traumáticas memórias familiais e da tia que tanto a decepcionou. Ela confronta sua tia, se vê confrontada por ela e traz a público a atuação dela no período Pinochet.
Rivas por vezes, em sua própria defesa, tenta manipular a sobrinha com sentimentalismo e insiste em dizer que ela foi apenas secretária do Chefe da DINA, não presenciou ou praticou torturas e nem participou do assassinato de opositores ao Estado, embora declara que sabia que tais fatos aconteceram na época pelas mãos de seus colegas de trabalho. E relata que os 4 anos que trabalhou na DINA foram os melhores anos da sua vida.
Lissette, assim como sua tia, é também protagonista do documentário e relata um passado afetivo, familial e político construído como um quebra-cabeça, intercalando e mesclando poucas imagens da época ditatorial (fotos e matérias de jornais) com imagens de arquivos familiares (fotos e filmes de família e conversas Skype gravadas em vídeo) e também imagens filmadas.
A montagem zelosa, ágil e precisa ficou a cargo de Melisa Miranda.
Não vou me estender em detalhes, mas apenas para conhecimento cito brevemente a existência de outros dois documentários autobiográficos por assim dizer, envolvendo os realizadores dos filmes, memórias familiares e ditatoriais:
Mi vida con Carlos (2010) de German Berger-Hertz.
Filme em que o realizador evoca a memória do seu pai, Carlos Berger, assassinado em 1973 pela ditadura militar de Pinochet; e mostra também a luta de sua mãe, Carmen Hertz, em busca de justiça.
El edificio de los chilenos (2010) de Macarena Aguiló.
A longa-metragem retrata o Projeto Hogares (Lares), idealizado para que os filhos de militantes do MIR-Movimiento de Izquierda Revolucionaria ficassem sob a responsabilidade de um “pai social”, enquanto os seus pais verdadeiros combatiam contra Pinochet.
A realizadora do filme, foi uma dessas crianças, filha de líderes do MIR, sequestrada pelo regime militar e, posteriormente, abrigada num local próximo a Havana/Cuba, num prédio que ficou conhecido como “Edifício de los chilenos”.
Lissette em seu filme traz um posicionamento explícito e CORAJOSO, com um tom conflituoso e extremamente investigativo, contudo, não jornalístico. Ela dialoga e critica a tia Chany por estar envolvida com torturadores, uma mulher de 68 anos, que há alguns anos vem sendo julgada pela justiça por causa da sua atividade laboral nos anos 1970. Ela atualmente vive em liberdade condicional, está para ser extraditada pela Austrália e enviada ao seu país, num processo que segundo a realizadora pouco avança. No fim dos anos 1970, Adriana deixou o Chile e foi se esconder na Austrália, onde atualmente tem cidadania.
Diferente dos documentários de German Berger-Hertz e Macarena Aguiló, filmes em que os realizadores retomam o passado político para clamar por justiça e expor o que sofreram suas famílias durante a era Pinochet; a realizadora de O pacto de Adriana confronta a sua tia, a sua própria família, trazendo às vistas questões que podem complicar a situação de Adriana perante a justiça chilena. Adriana esperava que o filme fosse ajuda-la a se inocentar do que fez. Sem contar que o filme causou rupturas nas relações familiares. Lissette não acoberta os embustes e nem julga sua tia, cria as condições para que as coisas sejam vistas, traz diferentes pontos de vista, mostra as verdades e as mentiras que Adriana deve enfrentar perante um Juiz. O espectador pode tirar suas conclusões, mas o julgamento de Adriana, a realizadora deixa para a justiça fazê-lo.
E seguramente o filme é uma importante contribuição para a memória e história política do Chile.
Além disso, O pacto de Adriana se destaca de tantos outros filmes feitos na América Latina sobre a ditadura militar, pelo facto da realizadora questionar a atuação de uma pessoa do seu meio familiar que colaborou com um regime de exceção.
Nos filmes que vi até agora sobre este tema, e não foram poucos, os realizadores colocam em discussão e defendem a história de pessoas que lutaram e resistiram contra a violência de Estado dos governos ditatoriais. Com exceção de “Pastor Claúdio” (2018) da brasileira Beth Formaggini, cujo protagonista é um torturador que confessa abertamente seus crimes cometidos durante a ditadura no Brasil.
Em 2017, em ENTREVISTA à equipe da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme, Lissette Orozco declara por que fez “O pacto de Adriana“:
“Como admirava muito a minha tia, o meu primeiro impulso era fazer um filme para apoiar sua inocência (…)Mas, durante o processo, as coisas foram mudando. Era muito forte entrevistar alguém que dizia coisas terríveis sobre ela e chegar em casa e receber uma mensagem dizendo: ‘Oi, meu amor, como você está?’. Já estava filmando há três anos quando pensei em parar tudo. Se continuasse com o documentário, trairia minha tia e atingiria toda minha família. Mas minha natureza nunca foi de deixar algo pela metade, e havia uma equipe que estava nesse projeto. Por isso, tentei fazer o filme mais coerente possível e que não traísse a mim mesma. Assumi o risco de cortar os laços com pessoas da minha família, porque acredito que este trabalho é uma contribuição importante para a memória histórica do Chile e de outras partes do mundo. Não é um conflito de querer desmascarar minha tia, mas o conflito ético de até onde vão os laços afetivos e morais”.
Como se pode perceber, realizar o filme não foi nada fácil para Lissette. Fica o convite para assisti-lo! No Brasil, está disponível online na Plataforma Sesc Digital
O pacto de Adriana é a primeira longa-metragem de Lissette Orozco, feita no Chile e a cores, levou cerca de 6 anos para ser realizado, entre 2009 e 2015, foi lançado em 2017 e tem duração de 96min. O filme esteve nas salas de cinema chilenas e estreou internacionalmente na Competição Panorama do Festival de Cinema de Berlim.
P.S. O trailer, as participações do filme em Festivais pelo mundo, os prémios recebidos, a ficha técnica completa, entrevistas e os próximos projetos audiovisuais de Orozco estão disponíveis no site da Produtora do seu primeiro documentário, a Salmón Producciones.





















