Mesmo ao lado de Locarno, em Ascona, encontramos o Monte Veritá, colina com um magnetismo muito particular, uma radioatividade natural e frequências cosmo-telúricas superiores à média, que durante o início do século XIX serviu de pouso para comunidades utópicas e culturais, que influenciaram mais tarde outros movimentos da contracultura, entre eles os hippies.
Por lá passaram Hermann Hesse, Carl Jung, Erich Maria Remarque, Isadora Duncan e Paul Klee, e do socialismo primário à anarquia, passando por regimes vegetarianos e o naturismo, a colina foi um ponto essencial de fuga ao estabelecido, pelo menos até ao início da Primeira Guerra Mundial, que mudou todo o paradigma dessas comunidades apelidadas por quem vivia em Locarno como o monte dos “dançarinos nus” (naked dancers).
Já com duas dezenas de projetos – entre curtas e longas – na sua longeva carreira, Stefan Jäger estreia-se nos filmes de época para contar a história do Monte Veritá a partir de uma história pessoal de uma personagem fictícia, a de Hanna (Maresi Riegner em boa forma), uma esposa que segue para o Monte Veritá para se libertar do seu papel burguês e das restrições sociais. Construindo a personagem como alguém sujeito à catalogação social e obrigações conjugais (onde se incluem abusos sexuais “por direito do marido”), Hanna carrega o peso de ser uma montra da condição da mulher na época, descobrindo no famoso espaço naturalista o interesse pela arte, em particular pela fotografia (aqui ela é a suposta fotógrafa que nos forneceu as poucas imagens que temos dessa local na época). E há também uma descoberta sexual, tudo isto revelado sobre os desígnios de um hospício que servia de base para todo um novo pensamento, onde o experimentalismo da psicologia pós-Freud, via os seus aprendizes, estava em marcha.
Embora mais focado na história pessoal de Hanna, da jornada de emancipação e descoberta de vários prazeres (carnais, espirituais, artísticos), o cineasta paralelamente traça um retrato naturalista da atmosfera da época sem nunca cair em especulações ou favoritismos. E com a colaboração da diretora de fotografia Daniela Knapp (E Amanhã, o Mundo), ele carrega a palete de cores do seu filme de forma magnética, canalizando para o espectador um poder de transformação espiritual movido por uma força invisível, que pode até encontrar no monte a sua “desculpa” geográfica, mas que acima de tudo demonstra uma necessidade extrema de novos pensamentos e ações que colidam com o conservadorismo generalizado.
O resultado final é um filme de empoderamento no feminino, mas também de exposição de ilusões políticas, sociais e humanas que acabariam sufocadas não só uma guerra global como também pelos falhanços científicos na área da psicologia. Mas a semente transformadora ficou plantada e foi rejuvenescida no pós Segunda Guerra Mundial em todo o mundo, com particular incidência nos anos 70 com os hippies e nos 2000 com o levantamento millennial e woke, o qual tem originado violentas discussões nos mais variados campos, seja da identidade sexual, racial, da ecologia e do modelo económico.




















