Abram espaço para o mais que provável sensação junto do público no Festival de Locarno, uma comédia sobre três homens, verdadeiros “faz-tudo”, que vagueiam de casa em casa e têm de lidar com mil e uma peripécias à conta dos seus clientes, ora entregues à solidão que a idade lhes traz, ora à infantilidade, ou ainda ao desleixo de entregarem todas as suas vidas a decisões a maquinaria e tecnologia moderna tão fria e esterilizada que retira qualquer poeira de humanidade.. 

Apesar da sua forma de crowd pleaser desarmante (a exibição para o público geral em Locarno moveu-se entre muitas palmas e aplausos), “The Odd-Job Men”  nunca desiste de ter  um cunho de verdadeira humanidade (nas falhas e vitórias), mas igualmente com o seu tom político e social bem demarcado (fala-se de migração, estereótipos, luta de classes), sempre embutido com o espírito da tradição documental, isto apesar de ser uma ficção assumida.

É que a catalã Neus Ballús, já habituada no passado a falar do trabalho e dos seus trabalhadores, mesmo que apenas no pano de fundo, como se viu em “Staff Only”, contratou realmente um trio de “faz tudo” (que se multiplicam em trabalhos que vão desde elétricos à canalização) para atuarem como eles mesmos, escrevendo o guião [grande parte já na montagem] com as sua experiências e conversas que foi acumulando com eles.

Menos de duas horas de filme foram assim selecionadas a partir de centenas de horas de filmagens, assumindo depois o filme segmentação em capítulos demarcados pelos dias da semana, os quais tanto funcionam isoladamente num formato de sketches cómicos, como na sua totalidade, num filme verdadeiramente compacto sobre trabalho, trabalhadores e os homens por trás dele, sempre entregues a dilemas e lutas da vida quotidiana, onde não falta uma exposição clara de uma masculinidade tóxica que esconde inseguranças normalmente associadas ao sexo feminino.

O resultado final é assim um filme doce, capaz de nos transportar entre sorrisos tímidos e gargalhadas profundas, mas também momentos de reflexão que lhe dão maior profundidade. 

Ou seja, resumindo, muitos mais elementos que trafegam pelo grande ecrã de forma orgânica do que aqueles normalmente exigimos e obtemos dos chamados “feel good movie”, normalmente mais pueris e superficiais.

Dito tal, The Odd-Job Men” é uma bela surpresa com elevado potencial comercial [e de eventual remake no futuro] que conjuga dois mundos complicados de se cruzarem: o cinema com marcas de autor e forte tom documental e social, tudo embrulhado num objeto solenemente comercial e exportável.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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