A irreverência de Bertrand Mandico é mais que conhecida, não fosse ele – juntamente com a islandesa Katrin Olafsdottir – signatário fundador do “Manifesto da Incoerência”, como ficou conhecido em 2012 um movimento [Ser incoerente significa ter fé no cinema, é ter uma abordagem romântica, desformatada, livre, perturbada e onírica, cinegénica e uma narração épica] que muitos responsabilizam como influenciador de novos nomes do cinema gaulês da década de 2010 como Yann Gonzalez (Coração Aberto), Caroline Poggi e Jonathan Vinel (Jessica Forever).

Depois de várias curtas e médias metragens, ensaios experimentais e a longa-metragem estreia “Les Garçons Sauvages”, o assumido não-binário que dedica particular foco na sua obra à fluidez corporal e de género leva-nos agora a um planeta – After Blue (menção à Terra como planeta azul)– onde apenas as mulheres podem sobreviver no meio da flora e fauna inofensivas. Na verdade, tudo isto é um novo Éden pronto a ser corrompido pela natureza humana.

Estilizado em toda a sua dimensão, como se fosse uma tradução cinemática da música de David Bowie dos anos 70 e 80, e eroticamente carregado, mas nunca excessivamente sexualizado, “After Blue” revela ser uma viagem alucinante e desnorteante onde só peca a sua duração excessiva (2h07m), típica de cineastas que ainda sofrem de algum receio em cortar algumas cenas filmadas que apenas servem como elementos redundantes e uma forma de extensão artificial de sequências que deviam ser mais incisivas. 

E neste imaginário fértil, neste “mundo Mandico”, não faltam referências cinematográficas, à literatura pulp, à moda e banda-desenhada, numa fusão de elementos que vão desde a fotografia ao videoclipe, o que faz com que o cinema de Bertrand Mandico, mesmo enclausurado em formatos catalogáveis como o western (espacial) e o filme de aventuras (sempre existencial), seja pura provocação e poesia. 

Quero ser o David Bowie do cinema”, disse-nos em entrevista. Vendo o filme – onde não faltam pequenos detalhes enriquecedores e reveladoras de um humor muito especial do autor, como armas e andróides com nomes de grandes marcas (Channel, Gucci, Louis Vuitton) que revelam uma extensão do capitalismo além Terra, o carisma e amor à 7ª arte está lá, bem como o seu naipe de atrizes emblemáticas, onde não falta a carismática  e frequente habitué no seu cinema Elina Löwensohn, além de Vimala Pons, Agata Buzek e a estreante Paula Luna, a qual no papel de Roxy serve-nos de bússola sensual, uma arma hipnótica que Bertrand usa para nos encadear numa aventura bem mais arrojada e divertida do que poderíamos imaginar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
after-blue-bertrand-mandico-regressa-com-excitante-e-estilizado-western-espacial A irreverência de Bertrand Mandico é mais que conhecida, não fosse ele – juntamente com a islandesa Katrin Olafsdottir – signatário fundador do “Manifesto da Incoerência”, como ficou conhecido em 2012 um movimento que muitos responsabilizam como influenciador de novos nomes do cinema...