Habituado nos últimos 30 anos a lidar com as mais diversas formas de cinema guerrilha, Abel Ferrara aproveitou a pandemia – ruas desertas, máscaras faciais obrigatórias, quilos de gel, e uma paranoia total – para filmar uma trama antiga que tinha na agenda, um projeto denominado “Zeros and Ones” que se desenrola num cenário pós 11 de setembro, com a chamada “guerra ao terror” a invadir Roma e o Vaticano a partir de um evento destrutivo vagamente referido.

Desta vez sem Willem Dafoe, mas com Ethan Hawke no protagonismo, o filme centra-se num soldado que chega à capital romana para caminhar nas sombras e levar a cabo uma missão secreta.

Imagens orgíacas, militares e religiosas mesclam aqui e ali num thriller nervoso e inebriante deixando todas as marcas de um cineasta que centra mais uma vez o seu foco num herói ambíguo carregado de demónios pessoais, e que é deixado ao critério do espectador definir como bom ou mau da fita. Aliás, ainda antes dos créditos se iniciarem, Hawke diz isso mesmo sobre o seu papel neste filme, o qual teve a sua estreia mundial no Festival de Locarno.

Não se esperam leituras fáceis e ainda menos degustações simples no cinema de Ferrara, e aqueles que tecem favoritismo por um storytelling convencional, académico e limpo vão encontrar as frequentes barreiras e a assinatura que Ferrara – apoiado na cinematografia por Sean Price Williams e na montagem por Leonardo Daniel Bianchi- impõe na sua arte, como se este acreditasse que se deve lutar de todas as formas e com todas as forças contra o guião e regressar aos tempos idos do seu percurso no cinema.

Na verdade, a confusão narrativa, a crueza visual verité acompanhada de uma banda-sonora rock desnorteante, a câmara solta com tendência a perseguir e colar-se nos atores em frequentes close-ups, o uso do Zoom, – via Zoom, essa ferramenta de guerra e sobrevivência contemporânea, além dos habituais fetiches do cineasta na utilização de imagens sensuais e sexualizadas, viagens entre sonho e realidade e uma iluminação noturna pobre por entre ruas, becos e vielas, transformam este “Zeros and Ones” num objeto visualmente menos espampanante e conseguido que as suas propostas anteriores (novamente Sibéria), mas que ainda assim continua a ser o de mais atraente e rico num filme de um realizador que se mostra irredutível em mudar ou facilitar a leitura e interpretação do seu cinema.

We just lost it”, diz Hawke no final dos créditos (mas que ainda faz parte do filme), como que dando a entender que, como nós, a confusão é maior que as certezas, mas o sentimento de prazer em fazer parte da experiência cinemática está lá, mesmo que o clima de todo o filme seja de profundo mal estar e de degradação profunda de uma sociedade ocidental perdida no foco e rendida ao medo: a um vírus, ao terrorismo, ou a bolhas imobiliária que provocaram várias explosões económicas e humanas neste novo milénio. 

E só por isso, por essa irredutibilidade, atmosfera rock n’roll e desejo de fazer parte da História do cinema contemporâneo, este thriller desconjuntado e nada fácil de seguir merece uma olhadela, especialmente para os seguidores mais radicais do realizador, ainda que fique claramente a sensação que estamos longe de todo o seu potencial e resultados que Ferrara já conseguiu no passado.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Daniel Antero
zeros-and-ones-abel-ferrara-regressa-com-thriller-veriteEste thriller desconjuntado e nada fácil de seguir merece uma olhadela, especialmente para os seguidores mais radicais do realizador