Com o roteiro e a realização da argentina Sabrina Blanco, estreante em longas-metragens, o filme ficcional A barqueira (La botera / Boat rower girl, 2019) convida-nos a entrar na realidade de Tati (Nicole Rivadero), habitante de um bairro periférico de Buenos Aires, chamado Isla Maciel, onde o filme foi rodado.
A realizadora estudou direção cinematográfica na escola Cievyc/Buenos Aires e antes da longa-metragem escreveu a curta-metragem The drought, 2017, realizada por Nicolas Stefanazzi.
A cineasta cria um retrato íntimo da vida desta pré-adolescente de cerca 13 anos que vive com o pai, Osvaldo (Sérgio Prina); ela não tem referência feminina em casa e cuja mãe nada se sabe ou de qualquer outra relação parental. Os dois dividem o quotidiano numa casa muito simples e precária, assim como o bairro em que residem.

Tati está em processo de transformação entre a infância e a juventude, cheia de desejos, quer experimentar as coisas próprias da sua idade, e inicia o filme com uma obstinação: ser barqueira, aprender a navegar no pequeno rio que passa no seu bairro, aprender a remar o pequeno barco que era do seu pai e que passou a pertencer a um jovem desconhecido de 17 anos. Profissão comummente dominada por homens e mesmo para os homens de Isla Maciel está cada vez mais reduzida, tendendo a extinguir-se. A realizadora ao escolher uma protagonista MULHER e que deseja tal profissão, coloca em discussão questões de género. Tati é uma personagem forte, demanda ser respeitada como mulher e ocupa o lugar que é supostamente reservado ao mundo masculino, rompendo tal barreira.
Há um premiado filme brasileiro que igualmente levanta esta discussão, Meu nome é Bagdá (2020) de Caru Alves de Sousa, cuja protagonista é Bagdá (frame abaixo), vivida por Grace Orsato, uma adolescente skatista que passa maior parte do seu tempo nas pistas de skate praticando manobras com um grupo de meninos, um meio propenso ao machismo. Ela vive na Freguesia do Ó, um bairro da periferia da cidade de São Paulo.

Bagdá assim como Tati, é uma atriz estreante, proveniente da mesma classe social e igualmente rompe com o que é alegadamente destinado aos homens. Ambos os filmes empoderam as mulheres, ressaltam o protagonismo feminino e mostram que as mulheres podem ser o que elas quiserem e ocuparem espaços antes restritos aos másculos.
Voltando ao universo de Tati, ela é uma garota responsável e solitária, é quem acorda o pai para trabalhar como motorista da Uber depois dele ter vendido o barco. Um pai igualmente solitário e sem amigos. Os dois têm uma maneira reservada de ser e até meio seco/tosco na relação entre pai e filha. Ela não tem com quem contar, cuida de si própria e divide o seu tempo entre a pacata vida caseira e o ensino médio de uma escola pública, onde uma professora lhe chama atenção pelas notas más; entre os momentos de ser voluntária numa escola infantil e o seu deambular por ruas pouco movimentadas com aspecto de descaso público; e entre os fugazes e agradáveis encontros com Kevin, o seu único amigo, e com o jovem barqueiro que comprou o barco do seu pai, quem lhe ensina a remar. Não demora e Tati perde a amizade de Kevin, que vê-se obrigado a ir-se embora para a cidade de Missiones, convocado a trabalhar com o pai.
A adolescente tenta interagir com as meninas da sua idade na rua e na escola, mas entretanto sofre bullying e não se sente acolhida. Apesar de tudo, Tati é corajosa, destemida, errática e arredia. Ao mesmo tempo a sua identidade está em construção, transição, suspensão e tensão interna no embate com o mundo externo. Ela não sabe bem como gerir a sua própria vida e, como forma de reagir a tudo isto, confronta o pai e a todos ao seu redor. Os laços afetivos entre eles são frágeis e parcos. Ela age com uma força masculinizada, a meu ver como defesa frente aos percalços visíveis e invisíveis da sua jornada existencial, além de não ter nenhuma referência feminina familiar. Tati vive uma luta intensa, buscando encontrar algo que ultrapasse a sua realidade, algo que lhe dê algum consolo diante do meio social ao qual pertence. Ela está em combate por dentro e por fora de si.
Tati não teme o poder de ninguém sobre ela e sabe muito bem o que quer. É com o jovem “amigo” barqueiro que quase se consuma a sua iniciação sexual; experimenta criar um vínculo afetivo-amoroso com o rapaz, mas fracassa. Durante toda a narrativa fílmica o seu único fiel companheiro é o pai, com quem tem pouca proximidade, embora seja a sua única filha. No geral, as personagens do filme pouco comunicam e pouco expressam afetos uns com os outros, são bastante resguardados na sua intimidade, e têm uma vida insossa com pouca possibilidade de mudança, como se estivem fadados à repetição quotidiana, a um viver sem excitação. Neste sentido, Tati é a única que se move e insiste em aprender a conduzir o barco entre o pequeno rio que atravessa a Isla Maciel e o bairro La Boca da capital argentina. Ela persiste em se colocar em movimento, tentando reinventar a mesmice dos dias no lugar que abriga a sua vida, todavia conduzir um pequeno barco a remo parece ser a única transgressão possível para ela. No plano ficcional não consegue transformar a sua condição social, contudo, no plano da realidade a sua vida toma outro destino: a jovem de um bairro periférico de Buenos Aires nunca havia pensado em entrar no mundo cinematográfico, todavia, através da sua atuação em “A barqueira”, tornou-se conhecida em diferentes países e agora é uma atriz de cinema.
Neste filme apreende-se um cinema autoral com sensibilidade feminina, uma direção impecável da estreante Sabrina Blanco, que cria uma encenação mais realista, mostra a vida como ela é, e aborda a realidade social contemporânea com as suas fraturas. Uma estética mais “crua” e sem dramatização exacerbada, expondo e pondo em discussão as questões sociais do seu tempo. Algo próximo do cinema de John Cassavetes (1929-1989), também pelo uso da câmara na mão para adentrar mais o universo e intimidade da protagonista e registar o seu percurso inquieto, principalmente, quando ela perambula pelas ruas, seja de dia ou nas noites vazias em busca de algum afeto, seja de amizade, amoroso ou carnal. Mas Sabrina também filma em câmara fixa planos abertos e médios e de curta duração, um filme rodado proporcionalmente em interiores e exteriores, predominando uma atmosfera meio turva da luz outono-invernal, impressa igualmente nas cores e no figurino que dialoga com os sentimentos da adolescente.
Sabrina Blanco, faz um filme ficcional, com estética visivelmente documental, convidando não-atores para viver as personagens, como também fazia Cassavetes, os moradores do bairro onde ocorreram as filmagens e dos arredores. Somente com a protagonista, a realizadora disse ter trabalhado por 2 anos, permitindo improvisação dos atores-personagens. E apesar de ter dito que não havia um roteiro estruturado, ela afirma que tanto o roteiro, quanto o processo de filmagem, alimentou-se do que se passa no plano da realidade, na vida de pessoas marginalizadas socialmente. O elenco foi “treinado” por um profissional de teatro, mas não atua de forma teatral e estão bastante espontâneos diante da câmara. A diretora reconstrói no cinema o universo destas pessoas, dando a eles voz e a oportunidade de serem vistos pela sociedade através da tela fílmica, já que no plano da realidade eles são colocados à margem, encontrando-se demasiado distantes das classes favorecidas economicamente. A barqueira convida-nos a olhar para aqueles que estão ilhados em lugares de exclusão social e para as mulheres que ocupam espaços, profissões e funções sociais diferentes daquelas supostamente a elas destinadas.
Um filme que usa o silêncio como recurso dramático, valoriza os sons dos ambientes, faz uso de pouca música, constrói uma montagem sensata e cuidada feita por Valeria Racioppi. Ótima direção de elenco dos não atores e atores não-profissionais. A protagonista, assim como as demais personagens representam/vivem muito bem seus papeis, mesmo não sendo atores. Na verdade, os únicos profissionais no elenco são Sérgio Prina, o homem que vive o pai da Tati e a personagem de Gabriela Saidon. A direção de fotografia é de Constanza Sandoval, carregada de imagens sensoriais. O filme demorou 5 anos para ser executado, incluindo o longo processo de pesquisa. Segundo Sabrina, numa entrevista concedida à argentina Catalina Dlugi, tudo foi construído aos poucos com o elenco e nas próprias locações do filme em Isla Maciel, tendo a escolha da protagonista acontecido por acaso. Nicole Rivadero ne sequer sabia que acabaria por ser a personagem principal do filme, pois nunca havia atuado. Pelo seu papel em A barqueira foi indicada aos prémios Silver Condor Award for Best New Actress 2021 e Sur Award for Best New Actress 2020.
Numa conversa online com a brasileira Marta Biavaschi no Instagram da Zeta Filmes, em 21 de maio de 2021, Sabrina relata que fazia trabalho social em bairros pobres de Buenos Aires na época do filme e que existia uma conexão direta entre a realidade e o mundo ficcional de A barqueira. Algo que é possível perceber nas imagens do filme, na composição das personagens e pela escolha de um lugar periférico para as filmagens.
Para terminar, evoco a conhecida frase do poeta português Fernando Pessoa, “Navegar é preciso, viver não é preciso“, para dizer que por mais que Tati tenha aprendido a remar um pequeno barco, para ela VIVER É TÃO NECESSÁRIO QUANTO NAVEGAR; uma vida que implica toda uma improvisação para quem está inserido em locais de vulnerabilidade social. Não existem garantias nem exatidão na insegura rota que a adolescente precisa transcorrer enquanto mulher e habitante da isolada zona suburbana nomeada Isla Maciel.
A Barqueira (La botera / Boat rower girl, 2019) – ficção, dcp, cor, 75min – está em cartaz nas salas de cinema do Brasil e é um excelente filme! A distribuição é da Zeta Filmes, especializada em filmes autorais e Produtora do Indie Festival no Brasil, uma distribuidora que leva cinematografias autorais e “periféricas” de toda parte do mundo para as terras brasileiras, trazendo novas estéticas e estimulando um diálogo com o trabalho de cineastas locais que não têm acesso a tal cinema.
O filme competiu no Festival de Cinema Internacional de Mar del Plata 2020; venceu o Festival de Málaga (2019) e o WIP do Festival de Nuevo Cine Latinoamericano La Habana (2018). Foi contemplado no Forum de Coprodução do Festival de Guadalajara 2017; no Lobo Lab 2016 da Fundación Carolina; no Nuevas Miradas da EICTV 2015 e no Desenvolvimentos de projetos Raymundo Gleyzer 2015.



















