Ao longo do mês de maio, a Cinemateca tem celebrado o centenário do nascimento de Deborah Kerr, uma das figuras mais reconhecidas do cinema americano dos anos 1950 e 1960, para onde emigrou depois do sucesso dos seus primeiros filmes britânicos. A carreira desta atriz, que começou por ser bailarina clássica, acabou relativamente cedo: aos 48 anos, Kerr praticamente desapareceu de cena, desencantada com o cinema e com os papéis que lhe ofereciam, voltando-se para o teatro. No ciclo “Deborah Kerr – Até à Eternidade” é-nos dada a ver a versatilidade desta atriz, apta a manejar vários géneros sem sair da mesma personagem e do mesmo filme, e conhecida pelo seu porte distintamente aristocrático.
Ao mesmo tempo, tem-se desenrolado o ciclo “Escrever/Filmar – Escritores no Cinema”, que se propõe a pensar uma das inúmeras relações entre o cinema e a literatura, a partir de um conjunto de dez filmes de ficção em que a matéria prima narrativa é a utilização da figura e do trabalho do escritor. A abundância de personagens escritores – reais ou imaginários – na história do cinema daria certamente para alimentar vários ciclos, mas este parte da centralidade do escritor enquanto personagem principal.
Além destes dois ciclos, é ainda de destacar esta semana o encontro em torno do Cined 2.0, um programa europeu de educação para o cinema que visa facilitar a jovens entre os 6 e os 19 anos a descoberta do cinema enquanto forma de expressão artística e modo de conhecimento do mundo. Na tarde do dia 26 de maio haverá um encontro de apresentação do projeto, seguido da exibição de um dos grandes filmes de Rainer W. Fassbinder.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 24 a 29 de maio:
– The Ghost Writer (O Escritor Fantasma, 2010) – Terça-feira, 25 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Baseado no livro The Ghost, de Robert Harris, o argumento deste filme segue a história de um escritor (Ewan McGregor) que aceita um contrato para completar a autobiografia do ex-primeiro ministro Adam Lang (Pierce Brosnan) como escritor fantasma. Embarcando num projeto que parece destinado à turbulência, depressa a paranoia, o delírio e os fantasmas o começam a assombrar. Este thriller político foi realizado por Roman Polanski, que arrecadou o Urso de Prata em Berlim, bem como o César para melhor realizador.
– Angst essen Seele auf (O Medo Come a Alma, 1973) – Quarta-feira, 26 de maio, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Esta obra de Rainer W. Fassbinder trata-se de um remake peculiar de All That Heaven Allows (1955), de Douglas Sirk. Com esta história da ligação entre uma mulher de limpeza alemã de meia-idade e um imigrante árabe mais novo do que ela, o cineasta fez um filme profundamente político e revelador, ainda hoje, do olhar que o continente europeu mostra sobre cidadãos refugiados e imigrantes, assinando, paralelamente, uma extraordinária história de amor entre duas personagens cujas vidas se cruzam para combater o seu destino (a solidão, a xenofobia, o medo que come as suas almas). Um filme essencial da década de setenta do cinema europeu.
– Malina (1991) – Quarta-feira, 26 de maio, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Malina adapta um livro de Ingeborg Bachman, escritora e poetisa austríaca, comentadora e leitora de Wittgenstein e de Heidegger, que é uma obra sobre os limites da linguagem. Atravessado por uma interpretação extraordinária de Isabelle Huppert no papel de uma escritora, este filme de Werner Schroeter é, no mesmo sentido, uma obra sobre os limites do cinema: o indizível e o invisível. O enredo circula entre duas relações mantidas pela escritora com homens completamente diferentes.

– The Night of the Iguana (A Noite de Iguana, 1964) – Quinta-feira, 27 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Nesta adaptação da peça de Tennessee Williams filmada no México, à beira-mar, com fotografia de Gabriel Figueroa, Richard Burton é um padre renegado e alcoólico que ganha a vida como guia turístico. Ainda um pouco “Lolita” (papel que havia desempenhado em 1962 no filme de Stanley Kubrick), Sue Lyon assume a descontraída pele de jovem tentação. No papel da livre Maxine, Ava Gardner é a dona da fabulosa estalagem que é cenário do filme, enquanto Deborah Kerr é Hanna, auto-castrada neta do “poeta mais velho do mundo” por quem se faz acompanhar. The Night of the Iguana é uma das mais reputadas obras de John Huston.
– Umarete Wa Mita Keredo (Nasci, Mas…, 1932) – Sábado, 29 de maio, 15h00, Salão Foz, com acompanhamento ao piano por Catherine Morisseau. Considerado o primeiro dos grandes filmes de Yasujiro Ozu. Para Donald Richie, especialista em cinema japonês, é “a primeira vez que o cineasta combinou na perfeição todos os elementos que caracterizam o seu estilo”. História trágico-cómica sobre a relação entre um homem e os seus dois filhos, que não percebem por que motivo tem o pai de agir com tanta subserviência perante o patrão. O filme é mudo e realizado num estilo extremamente depurado, mas ainda longe do despojamento absoluto que caracterizaria a fase final da obra do mestre japonês.

