O grande programa que tem marcado este mês de sessões na Cinemateca (mas que acabou por ser reduzido, dado que inicialmente tinha sido pensado para um período mais alargado) insere-se no quadro da programação cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia do primeiro semestre de 2021. O foco é a presença do mar no cinema europeu, de Portugal à Europa de Leste, do cinema mudo ao cinema contemporâneo. “Os Mares da Europa” é um ciclo que dá conta de como a temática marítima alimentou de forma profunda muita da melhor ficção e do melhor documentário europeu, servindo tanto como centro dessas narrativas como de elemento plástico e poético inextricável dessas obras. O que vemos é como a diversidade da geografia e da história de cada país europeu assume relações distintas com o mar.
Durante maio a Cinemateca tem também celebrado o centenário do nascimento de Deborah Kerr, uma das figuras mais reconhecidas do cinema americano dos anos 1950 e 1960, para onde emigrou depois do sucesso dos seus primeiros filmes britânicos. A carreira desta atriz, que começou por ser bailarina clássica, acabou relativamente cedo: aos 48 anos, Kerr praticamente desapareceu de cena, desencantada com o cinema e com os papéis que lhe ofereciam, voltando-se para o teatro. No ciclo “Deborah Kerr – Até à Eternidade” é-nos dada a ver a versatilidade desta atriz, apta a manejar vários géneros sem sair da mesma personagem e do mesmo filme, e conhecida pelo seu porte distintamente aristocrático.
Nesta segunda metade do mês inicia-se ainda um outro ciclo, intitulado “Escrever/Filmar – Escritores no Cinema”, que se propõe a pensar uma das inúmeras relações entre o cinema e a literatura: trata-se de um conjunto de dez filmes de ficção em que a matéria prima narrativa é a utilização da figura e do trabalho do escritor. A abundância de personagens escritores – reais ou imaginários – na história do cinema daria certamente para alimentar vários ciclos, mas este parte da centralidade do escritor enquanto personagem principal.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 17 a 22 de maio:
– Providence (1977) – Segunda-feira, 17 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Alain Resnais conta-nos a história de um velho romancista inglês que decide escrever um livro baseado em personagens da sua família. Cada qual parece pior do que o outro, mas serão mesmo assim ou será isto fruto da má vontade do escritor? O filme é composto como um puzzle e, como de costume, Resnais arma um grande jogo do imaginário, em que fantasias, memórias e sonhos convergem para compor uma das suas obras mais complexas.
– To Koritsi Me Ta Mavra (A Mulher de Negro, 1956) – Terça-feira, 18 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Rodado na ilha grega de Hydra, esta obra lida muito singularmente com a geografia do lugar e com os contrastes entre o mar, a brancura das casas e as vestes negras das mulheres, compondo uma atmosfera trágica também presente nos restantes filmes de Michael Cacoyannis, em que o Mediterrâneo e a cultura clássica desempenham papéis primordiais. Aqui, um escritor ateniense vê-se de férias na ilha, albergando-se numa casa em que reina uma pesada atmosfera. Um drama que reflete sobre o peso dos interditos e a opressão das mulheres em regiões marcadas pela insularidade.
– Black Narcissus (Quando os Sinos Dobram, 1946) – Quarta-feira, 19 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. O mais demencial dos filmes de Michael Powell e Emeric Pressburger, perturbante interrogação sobre a influência que um lugar exerce sobre as pessoas que o habitam, neste caso um grupo de freiras numa isolada mansão dos Himalaias transformada em convento. O clima denso e sensual do filme, reforçado por uma deslumbrante fotografia a cores e magníficos cenários de estúdio, vai desequilibrando as personagens até as deixar à beira da loucura (entre elas, Deborah Kerr).

– Bonjour Tristesse (Bom Dia Tristeza, 1958) – Sábado, 22 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Depois de ter contribuído para a desmontagem do modelo clássico de Hollywood, Otto Preminger não deixou de procurar novos e alternativos caminhos. Este filme é um bom exemplo disso, com uma estrutura e um estilo que resultam de um encontro feliz entre uma sensibilidade americana e uma sensibilidade europeia, entre a cor e o preto e branco e entre um complexo trio de personagens (Deborah Kerr, David Niven e Jean Seberg). Um filme de uma beleza e de uma tristeza avassaladoras.
– The Night of the Iguana (A Noite de Iguana, 1964) – Sábado, 22 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nesta adaptação da peça de Tennessee Williams filmada no México, à beira-mar, com fotografia de Gabriel Figueroa, Richard Burton é um padre renegado e alcoólico que ganha a vida como guia turístico. Ainda um pouco “Lolita” (papel que havia desempenhado em 1962 no filme de Stanley Kubrick), Sue Lyon assume a descontraída pele de jovem tentação. No papel da livre Maxine, Ava Gardner é a dona da fabulosa estalagem que é cenário do filme, enquanto Deborah Kerr é Hanna, auto-castrada neta do “poeta mais velho do mundo” por quem se faz acompanhar. The Night of the Iguana é uma das mais reputadas obras de John Huston, e também será exibida na quinta-feira, 27 de maio, pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.

