Sessões na Cinemateca – Escolhas de 10 a 15 de maio

(Fotos: Divulgação)

Iniciado em janeiro e interrompido a meio desse mês devido ao agravamento da pandemia, que levou ao encerramento temporário da Cinemateca, o ciclo “Clássicos do Cinema Coreano” é agora retomado, no ponto em que tinha ficado, com a programação dos restantes filmes inicialmente programados. Trata-se de uma colaboração com a Embaixada da República da Coreia por ocasião do 60º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas com Portugal. A Coreia do Sul tornou-se, a partir dos anos 1990, um grande centro de produção cinematográfica, mas antes desse período a indústria sul-coreana já contava com grandes obras de cinema, ainda pouco reconhecidas nos dias de hoje. Os filmes que compõem este ciclo, realizados entre 1948 e 1993, permitem-nos vislumbrar o itinerário seguido pelo cinema durante os mais de quarenta anos entre a fundação do Estado sul-coreano (após a Guerra da Coreia) e o reconhecimento internacional do cinema do país. Antes da linguagem difusa e oblíqua que caracteriza as obras dos grandes cineastas sul-coreanos contemporâneos, foram seguidos outros percursos formais, que poderemos descobrir nesta retrospetiva.

O outro grande programa que é retomado este mês (mas que acabou por ser reduzido, dado que inicialmente tinha sido pensado para um período mais alargado) insere-se no quadro da programação cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia do primeiro semestre de 2021. O foco é a presença do mar no cinema europeu, de Portugal à Europa de Leste, do cinema mudo ao cinema contemporâneo. “Os Mares da Europa” é um ciclo que dá conta de como a temática marítima alimentou de forma profunda muita da melhor ficção e do melhor documentário europeu, servindo tanto como centro dessas narrativas como de elemento plástico e poético inextricável dessas obras. O que veremos é como a diversidade da geografia e da história de cada país europeu assume relações distintas com o mar.

Durante este mês de maio a Cinemateca celebra ainda o centenário do nascimento de Deborah Kerr, uma das figuras mais reconhecidas do cinema americano dos anos 1950 e 1960, para onde emigrou depois do sucesso dos seus primeiros filmes britânicos. A carreira desta atriz, que começou por ser bailarina clássica, acabou relativamente cedo: aos 48 anos, Kerr praticamente desapareceu de cena, desencantada com o cinema e com os papéis que lhe ofereciam, voltando-se para o teatro. No ciclo “Deborah Kerr – Até à Eternidade” será dada a ver a versatilidade desta atriz, apta a manejar vários géneros sem sair da mesma personagem e do mesmo filme, e conhecida pelo seu porte distintamente aristocrático.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 10 a 15 de maio:

– Méditerranée (1963) & La Pointe Courte (1954) – Segunda-feira, 10 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. “Companheiro de viagem” da Nouvelle Vague, Jean-Daniel Pollet desenvolveu uma obra singular, em que ao lado de filmes “narrativos”, com atores, surgem ensaios cinematográficos, como Méditerranée. Sem enredo, o filme é uma reflexão sobre a cultura e o pensamento, sobre “aquele instante fabuloso em que os homens, em vez de tentarem conquistar o mundo, se sentiram solidários com ele, solidários com a luz refletida e não enviada pelos deuses, solidários com o sol, solidários com o mar”, segundo as palavras de Jean-Luc Godard. La Pointe Courte, que marcou a passagem de Agnès Varda da fotografia para o cinema, é um dos títulos fundamentais na contagem decrescente para a eclosão da Nouvelle Vague. É um retrato semi-documental de uma aldeia de pescadores, que serve para a história de desamor vivida pelo casal formado por Philippe Noiret e Sylvia Monfort. A montagem é de Alain Resnais.

– Sopyonje (1993) – Terça-feira, 11 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nascido em 1936, Im Kwon-taek realizou mais de cem filmes. Sopyonje foi um gigantesco êxito de bilheteira, atraindo mais de um milhão de espectadores só na área urbana de Seul. O filme conta a história de um grupo de intérpretes de pansori, género musical clássico coreano, com um cantor ou cantora e um percussionista, música que destila um sentimento de tristeza. O grupo sai pelas estradas e é confrontado com o choque entre o velho e o novo, entre a música que interpretam e o mundo contemporâneo. Um filme sobre a herança e os valores no mundo globalizado.

– Terje Vigen (O Lobo do Mar, 1917) – Quinta-feira, 13 de maio, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro, com acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz. A partir de um poema épico de Henrik Ibsen, Victor Sjöström realizou uma das suas grandes obras-primas e um dos filmes que revolucionou o cinema sueco (um dos melhores do mundo nesta fase do período mudo), rompendo com a estética teatral e trazendo a liberdade dos exteriores e explorando a sua força dramática na história de um pescador que perde a família durante o bloqueio de Napoleão e procura a vingança.

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– The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp, 1943) – Sexta-feira, 14 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos mais belos filmes da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, que acompanha a vida de um oficial do exército britânico desde o começo do século até à Segunda Guerra Mundial e que mostra também como as novas estratégias de guerra enterraram a tradição do “cavalheirismo”. O inesperado sucesso do filme – a que o próprio Churchill inicialmente torceu o nariz, pensando que teria um efeito “desmoralizador” – catapultou Deborah Kerr, que se divide por três personagens, para a primeira linha. Permanece ainda como um dos mais notáveis filmes britânicos feitos durante a II Guerra, tão “patriótico” como crítico do patriotismo, tão otimista como friamente lúcido.

– Mor’vran, La Mer Des Corbeaux (1930) & U Samogo Sinevo Moria (À Beira do Mar Azul, 1933) – Sábado, 15 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Nesta sessão são projetados dois poéticos filmes dos anos 1930 filmados em ambientes piscatórios. Mor’vran é um curto documentário sobre os pescadores de uma ilha bretã, paisagem onde Jean Epstein ambientou o drama de vários dos seus documentários (ou semi-documentários, como Finis Terrae). A segunda obra, realizada por Boris Barnet é um melodrama aparentemente “leve” mas de um lirismo magistral: dois jovens pescadores de um kholkoze apaixonam-se pela mesma rapariga, tornando-se rivais até um desconcertante final. Trata-se de duas visões autorais belíssimas que atestam a presença sublime do mar na produção cinematográfica de uma ponta da Europa à outra.

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