As projeções de filmes na Cinemateca Portuguesa estão de volta e durante a segunda metade de abril vão dar-nos uma amostra do que aí vem durante o resto do ano de 2021. Como anunciámos há duas semanas, são muitos e para todos os gostos os ciclos de cinema que vão tomar conta das salas da Barata Salgueiro ao longo dos próximos meses. Apropriadamente intitulado “Brevemente neste Cinema”, o conjunto de sessões desta semana antecipa as temáticas, os géneros, os cineastas e as estrelas que vão marcar presença na programação futura.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 26 a 30 de abril:
– Aru Kyounhaku (Intimidação, 1960) – Segunda-feira, 26 de abril, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Koreyoshi Kurahara (1927-2002) estreou-se na realização para a Nikkatsu em 1957 e foi aí que assinou este drama criminal de elementos noir. Nele um ambicioso bancário enreda-se num esquema de chantagem que o leva a organizar um assalto ao próprio banco, confrontando-se com um subalterno movido pelo ressentimento vingativo. A acidez das reviravoltas narrativas engendradas na concentração da intriga tem lugar no Japão do pós-guerra, expondo o fundo corrupto pequeno-burguês de uma sociedade ameaçada pela desagregação. Os meandros da história, o ambiente noturno e a firmeza da realização fazem reverberar motivos do cinema clássico americano. O filme antecipa o programa “Disponíveis para o Noir”, que incidirá sobre filmes que revisitam ou reinventam o noir hollywoodiano.
– Paper Moon (Lua de Papel, 1973) – Terça-feira, 27 de abril, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Depois de What’s Up, Doc? (Que Se Passa, Doutor?, 1972) e The Last Picture Show (A Última Sessão, 1972), Peter Bogdanovich reincidiu na comédia e voltou ao preto e branco. O argumento parte de um romance de Joe David Brown (Addie Pray), decorrendo o filme durante o período da Grande Depressão no estado do Kansas, com Ryan e Tatum O’Neal (em estreia no cinema) a assumir, como na vida real, os papéis de pai e filha. Este ano a Cinemateca fará um ciclo em torno da filmografia deste realizador norte-americano, que virá a Portugal e terá carta-branca para programar um outro ciclo.

– Sedotta e Abbandonata (Seduzida e Abandonada, 1964) – Quarta-feira, 28 de abril, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos programas que a Cinemateca acolherá intitula-se “O Cinema Italiano, Lado B” e propõe mostrar filmes esquecidos, de realizadores “de segunda fila” e que não se inserem nos clássicos géneros deste país, como o giallo, o spaghetti-western ou o peplum. Nesta comedia all’italiana regada a misoginia siciliana, o cineasta Pietro Germi entrega-se ao desfile do grotesco. É uma mordaz crítica social recheada de todo o tipo de abusos a uma jovem Stefania Sandrelli, já a desenhar-se estrela do género. A atriz encontra rival no seu fabuloso “pai” Saro Urzì neste novelo familiar de desonra. Agnese é sedotta por Peppino (que é o mesmo que dizer violada) lançando a família numa tragédia sem nome. Momento definidor do filme, o diálogo que encerra a sua chave: “Tumore? — Onore”, responde Vincenzo (Urzì) lançando a luz sobre a doença espalhada pelo tecido social do patriarcado vigente. Este tumor que é a honra, que em vez de matar devora todas as células lentamente. Sublimes movimentos de câmara e planos sobre os monstros, os rostos masculinos quase desfigurados, olhos esbugalhados, expostos na sua brutalidade primal.
– The Blot (1921) – Sexta-feira, 30 de abril, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Drama social e moral sobre a luta de classes que marca o fim de uma empresa histórica: a Lois Weber Productions. Este foi, em Hollywood, o primeiro estúdio fundado por uma mulher, tendo dado ao mundo vários filmes que, sem pudor, abordaram problemas relacionados com iniquidades sociais e a condição feminina. Em certa medida, são estes os “borrões” (blots) que a câmara de Weber – também autora da história – enfrenta em The Blot, expondo uma situação flagrante de desarmonia social no caso de Amelia Griggs, jovem esbelta que tem como pretendentes um homem pobre e outro rico. Ela própria, filha de um professor, vive numa situação de necessidade, o que se torna especialmente problemático quando adoece, não tendo o suficiente para se cuidar. Uma das características mais exaltadas em Weber está presente neste filme: a vontade de expor “os borrões sociais” sem ingressar numa visão maniqueísta da vida – é esta maturidade humanista, pré-renoiriana, que hoje mais surpreende. Mais filmes desta cineasta serão apresentados ao longo do ano na Cinemateca.

