Sessões na Cinemateca – Escolhas de 4 a 9 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

Novo ano, nova programação. A Cinemateca Portuguesa inaugura 2021 com uma homenagem a Sean Connery, a estrela escocesa que faleceu em outubro passado, aos 90 anos. Connery não foi só um dos mais populares atores do último meio século, foi também um ator que conservou essa popularidade durante muito mais tempo do que é habitual, continuando, bem para lá dos 60 anos, a ser cabeça de cartaz em diversos filmes de grande impacto. Claro que a sua encarnação de James Bond, o agente secreto criado por Ian Fleming, é um marco – para a carreira de Connery, e para a carreira cinematográfica de 007, que depois passou por diversos atores sobre quem a sombra de Connery, o “original”, nunca deixou de pesar. Mas não se pode resumir a 007 a carreira deste ator, que é celebrada ao longo do mês de janeiro.

Outro grande ciclo que abre o ano intitula-se “Clássicos do Cinema Coreano” e trata-se de uma colaboração com a Embaixada da República da Coreia, por ocasião do 60º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas com Portugal. Mais conhecida por Coreia do Sul, este país tornou-se, a partir dos anos 1990, um grande centro de produção cinematográfica, mas antes desse período o cinema sul-coreano já contava com grandes obras de cinema, mas ainda pouco reconhecidas nos dias de hoje. Os filmes que compõem esta secção, realizados entre 1948 e 1993, permitem-nos vislumbrar o itinerário seguido pelo cinema durante os mais de quarenta anos que medeiam entre a fundação do Estado sul-coreano (após a Guerra da Coreia) e o reconhecimento internacional do cinema do país. Antes da linguagem difusa e oblíqua que caracteriza o cinema dos grandes nomes do cinema sul-coreano contemporâneo, o cinema do país seguiu outros percursos formais, que poderemos descobrir nesta retrospetiva.

Por fim, em janeiro inicia-se também um programa que se insere no quadro da programação cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia do primeiro semestre de 2021. O foco é a presença do mar no cinema europeu, de Portugal à Europa de Leste, do cinema mudo ao cinema contemporâneo. “Os Mares da Europa” é um programa que dá conta de como a temática marítima alimentou de forma profunda muita da melhor ficção e do melhor documentário europeu, servindo tanto como centro dessas narrativas como de elemento plástico e poético inextricável dessas obras. O que veremos é como a diversidade da geografia e da história de cada país europeu assume relações distintas com o mar. Este ciclo irá prolongar-se até aos primeiros dias de fevereiro.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 4 a 9 de janeiro:

– The Offence (O Delito, 1973) – Segunda-feira, 4 de janeiro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. Sidney Lumet era um dos realizadores de quem Sean Connery mais gostava. Depois de já ter trabalhado com ele em The Hill (1965) e The Anderson Tapes (1971), foi dele que se lembrou para dirigir uma adaptação de uma peça teatral de John Hopkins, que era um projeto pessoal de Connery. É um filme psicologicamente denso, que oferece a Connery uma faceta que os 007s não permitiam, e que o põe na pele de um detetive que usa violência desmedida no interrogatório de um suspeito de molestar crianças, e acaba por o matar. Também na quarta-feira, 6 de janeiro, pelas 15h00 na Sala M. Félix Ribeiro o filme será exibido.

Domangchin Yeoja (A Mulher que Fugiu, 2020) – Segunda-feira, 4 de janeiro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Cerca de um ano depois da retrospetiva dedicada na Cinemateca a Hong Sang-soo, a sua 24ª longa-metragem, pela qual foi distinguido como melhor realizador na Berlinale 2020, é apresentada em antestreia portuguesa. São pelo menos quatro as mulheres que, fugindo ou não, protagonizam o filme (a cores, depois de uma série de filmes a preto e branco), que acolhe a perspetiva feminina, remetendo as personagens masculinas a aparições desastradas. No papel de uma mulher de Seul que, por altura de uma viagem de trabalho do marido, encontra três amigas de longa data com vidas divergentes, Kim Min-hee conduz o filme ao longo de três segmentos sucessivos, encadeados por vistas de uma montanha, em que a ação flui das conversas, a câmara privilegia os planos sequência, e a simplicidade é aparente. Hong Sang-soo volta a apontar ao subtexto da carga emocional fazendo-a pulsar numa estrutura de rimas especialmente despojada.

– Zardoz (1974) – Terça-feira, 5 de janeiro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos mais singulares projetos de John Boorman que, misturando um universo de fantasia com um comentário “ecológico”, tinha aqui um precursor de Excalibur ou Emerald Forest. “Zardoz” é o nome de um deus venerado por uma comunidade dum mundo pós-apocalíptico, onde uma rígida estratificação social protege uma casta de privilegiados. Sean Connery é a personagem que não aceita este estado de coisas, e parte numa demanda para o mudar. O filme foi um fiasco na altura da estreia, mas entretanto foi-se tornando objeto de algum culto. A indumentária envergada por Connery talvez tenha algo que ver com isso.

– Hanyeo (A Criada, 1960) – Quinta-feira, 7 de janeiro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este grande clássico do cinema coreano foi definido por Hong Sang-soo como uma mistura de “drama, melodrama e filme de horror. Também é um melodrama criminal, que lida com o desejo sexual feminino e um comentário social e político”. Nona das 23 longas-metragens assinadas por Kim Ki-young (1919-1998), o filme conta a história, baseada num facto real, de uma criada que parece sofrer de perturbações mentais e é engravidada pelo patrão, que a convence a rolar pela escada abaixo para interromper a gravidez. A mulher submete-se, mas urde uma vingança terrível. A mise en scène, da mais alta mestria, faz com que narrativa flua, conduzida por uma câmara ágil e precisa. O filme teve o seu desenlace original, considerado demasiado chocante, alterado pela censura. Foi também objeto de um remake, em 2010, por Sang-soo Im.

– Miracolo a Milano (O Milagre de Milão, 1951) – Sábado, 9 de janeiro, 15h00, Salão Foz. “É uma fábula, e a minha única intenção é tentar um conto de fadas do século XX”, afirmou o realizador Vittorio De Sica. Esse “conto de fadas” anda à volta de Totò, um jovem angélico que vê a beleza e a bondade por todo o lado. Procurando reconstruir o bairro de lata onde vive ao lado dos outros habitantes, descobre petróleo na área. Os capitalistas lançam-se ao assalto e Totò e a avó (uma fada) levam os deserdados para um paraíso longínquo que, à época, muitos identificaram como a URSS.

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