O último mês do ano vê chegar à Cinemateca a terceira e derradeira parte do ciclo que desde o princípio de 2020 nos tem guiado pelos caminhos da comédia. Nesta instalação dedicada a “Revisitar os Grandes Géneros” afastamo-nos do género para nos aproximamos do fenómeno que lhe está mais diretamente associado: o riso. O que acontece no cinema quando é no ecrã que o riso se instala? Esta foi a pergunta que guiou a programação, resultando numa coleção eclética de risos, esgares e gargalhadas. A fechar o ano há ainda o regresso do ciclo “O Que Quero Ver”, dedicado à projeção de filmes solicitados pelos espetadores da Cinemateca: após vários meses em que a rubrica esteve suspensa, acumularam-se os pedidos que agora são satisfeitos com um ciclo em versão aumentada.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 14 a 19 de dezembro:
– Yabu No Naka No Kuroneko (O Gato Preto do Túmulo, 1968) – Segunda-feira, 14 de dezembro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. O fantástico e o terror encarnados em filme. Uma mulher e a filha são brutalmente violadas e assassinadas por soldados durante os tempos das guerras civis japonesas. Mais tarde, uma série de samurais, que regressa da guerra naquela região, é encontrada misteriosamente assassinada com as gargantas dilaceradas. Um dos mais impressionantes filmes de terror jamais feitos, e um dos mais aclamados de Kaneto Shindō, que também poderá ser visto a 30 de dezembro, quarta-feira, pelas 15h00 na Sala M. Félix Ribeiro.
– Don’t Look Now (Aquele Inverno em Veneza, 1973) – Terça-feira, 14 de dezembro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. O conto que o argumento adapta é de Daphne du Maurier, lidando com a morte e o luto. O filme é um thriller protagonizado por um casal que viaja para Veneza depois da morte acidental de uma filha e aí se instala durante um inverno em que conhece duas irmãs cujo carácter sinistro vai interferir com a sua vida. Estruturado em flashbacks e flashforwards, Don’t Look Now é um título de culto da filmografia do terror nos meandros do oculto. Outro exemplo, bastante convincente, das relações entre o cinema de horror e o riso como causador de medo (também o clássico de Kubrick, The Shining, em que vemos e ouvimos o riso desvairado de Jack Nicholson, está em exibição esta semana). Esta obra de Nicolas Roeg voltará a ser exibida a 21 de dezembro, segunda-feira, às 15h00 na Sala M. Félix Ribeiro.

– La Belle Équipe (Uma Mulher Que Não Vence, 1936) – Quarta-feira, 16 de dezembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nome maior do “Realismo Poético”, Julien Duvivier assinou em 1936 um dos grandes sucessos populares à época, muito devido ao carisma de Jean Gabin, ator que acabou por rodar sete vezes sob a batuta deste cineasta. O motor da narrativa – argumento coescrito por Charles Spaak – é a amizade masculina tornada parceria e negócio. A sorte de cinco homens pobres e em apuros muda quando lhes sai a sorte grande na lotaria. A “bela equipa” junta-se e investe na criação de um gigantesco bar popular, mas a entrada em cena de uma mulher (Viviane Romance) vem azedar o espírito de camaradagem…
– Chimes at Midnight (As Badaladas da Meia-Noite, 1966) – Quarta-feira, 16 de dezembro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. Utilizando uma personagem de várias peças, Sir John Falstaff, companheiro de folia da juventude de Henrique IV, a terceira adaptação de Shakespeare por Orson Welles é um dos filmes que melhor capta o espírito da obra do grande dramaturgo. Trata-se de uma história de amizade traída em nome dos interesses do Estado, com uma das maiores cenas de batalha jamais filmadas, onde a fúria dá lugar ao cansaço e o sangue se mistura com a lama. Num ciclo destes, não podia faltar a gargalhada “telúrica” de Orson Welles, gargalhada em sentido próprio, figurado e “filosófico”.
– Samma No Aji (O Gosto do Saké, 1962) – Quinta-feira, 17 de dezembro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Foi o último filme de Yasujiro Ozu e trata-se de uma variação sobre uma história de separação familiar, em reflexão nostálgica sobre o começo do “inverno da vida”. É também a sua celebração e a despedida ao “gosto do saké”, onde cabe toda a memória do passado e dos “bons tempos”. Profundamente comovente, Samma No Aji é um dos mais perfeitos filmes de Ozu, aquele onde a depuração do seu estilo atinge níveis supremos.
– Show Boat (Magnólia, 1936) – Sexta-feira, 18 de dezembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um musical delicioso baseado na versão teatral da Broadway de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II (por sua vez baseado no romance homónimo de Edna Ferber). A história centra-se numa cantora que cresceu no barco comandado pelo seu pai, até que um dia a oportunidade do estrelato lhe bate à porta. Irene Dunne é fabulosa no papel principal, e a acompanhá-la está um elenco que o realizador, James Whale, trouxe maioritariamente da versão teatral.

