A retrospetiva que a Cinemateca Portuguesa organiza juntamente com a 13ª Festa do Cinema Italiano celebra o ano do centenário do nascimento de Federico Fellini, integrando todos os filmes deste cineasta, porventura um dos maiores nomes do Cinema. E como se esta celebração da sétima arte não bastasse, o outro grande ciclo do mês de novembro propõe a descoberta daqueles momentos de cinema que transcendem qualquer linha lógica, em que vinga a pura linguagem cinematográfica e se criam grandes mitos e cenas lendárias. Momentos que nos levam a exclamar “Só o Cinema”! De Griffith a Manoel de Olveira, passando por Bergman, Bresson, Mizoguchi e Akerman, novembro promete ser um dos meses mais recheados do ano.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 9 a 14 de novembro:
– Le Notti di Cabiria (As Noites de Cabíria, 1957) – Segunda-feira, 9 de novembro, 14h30, Sala M. Félix Ribeiro. Esta é uma crónica das aventuras e desventuras de uma prostituta romana que nunca perde a fé nos milagres divinos e no milagre do amor – é sempre vencida, mas não desiste. Cabíria, a mais chapliniana das criaturas de Fellini, misto de títere e personagem de melodrama, também é um dos mais célebres papéis de Giulietta Masina e aquele com que a atriz mais se identificou. A sua atuação é talvez das mais extraordinárias da História do cinema europeu. Selecionada para o Festival de Cannes, a obra recebeu o prémio de melhor intérprete feminina, “para Giulietta Masina, de Itália, e a sua personagem, com homenagem a Fellini”.
– La Dolce Vita (A Doce Vida, 1960) – Segunda-feira, 9 de novembro, 19h30, Sala M. Félix Ribeiro. Filme escandaloso para os critérios da época, sobretudo na Itália das vésperas da revolução cultural dos anos 1960, narrado como um carrocel de acontecimentos sem um fio narrativo contínuo. É também o mais célebre filme de Federico Fellini (o tal, do banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi), assinalando um nítido ponto de viragem na obra do cineasta e sendo o primeiro dos seus filmes cujo desenlace é aberto. Com quase três horas de duração, La Dolce Vita fixou o mito de uma certa Roma, com uma variada fauna que vivia à volta da Via Veneto, formada por membros do que à época se chamava a café society, em que se misturam aristocratas, jornalistas, manequins, vedetas de cinema e paparazzi.
– Au Hasard Balthazar (Peregrinação Exemplar, 1966) – Terça-feira, 10 de novembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma fábula construída em torno de um burro que vagueia, ao acaso, de dono em dono. O cinema de Robert Bresson estava, por esta altura, no máximo do seu despojamento, num misto de simplicidade e gravidade formais. As deambulações do burro Balthazar exprimem uma figura capital no universo do cineasta: o acaso. Através dos sucessivos destinos de um burro, é a Humanidade que Bresson encena, num filme de uma beleza aguda, que ascende ao sublime até à insustentável cena final de abandono e morte.

– Otto e Mezzo (Fellini Oito e Meio, 1962) – Terça-feira, 10 de novembro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. O ponto de partida desta obra foi o cancelamento de um projeto de Fellini. Vendo a alegria dos técnicos perante a hipótese de construírem um novo filme (só ele sabia do cancelamento da produção), Fellini sentiu remorsos e decidiu fazer um filme sobre um filme que não se faz. O resultado foi Otto e Mezzo, no qual o realizador abandona por completo o realismo, a causalidade e a narrativa linear, numa obra quase abstrata, ambiciosíssima e marcada por uma poderosa imaginação visual. Explosivo e torrencial, o filme teve enorme impacto e fixou definitivamente a imagem de génio que passaria a ser associada a Felllini (que obteve inclusive o Grande Prémio no Festival de Moscovo por imposição do júri, à revelia das autoridades soviéticas). O título é uma alusão à obra do cineasta, pois seria o seu oitavo filme “e meio” (sete longas, duas curtas e uma co-realização).
– Amarcord (1973) – Sexta-feira, 13 de novembro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este é o filme que reconcilia todos os espectadores à volta de Fellini: os que gostam do seu primeiro período e os que preferem os seus filmes mais “barrocos”. Amarcord pode ser considerado uma espécie de síntese do cinema de Fellini, o ponto de convergência de diversas linhas da sua obra. No patoá da província natal do cineasta, “amarcord” (mais exatamente a “m’arcord”) significa “recordo-me” e este filme é uma espécie de romance que faz uma belíssima incursão na memória, com situações transfiguradas pela distância e pela evocação poética da adolescência de Fellini e dos seus encontros com personagens singulares, que ressuscitam a cada um dos seus filmes. Uma segunda sessão terá lugar a 25 de novembro, pelas 15h00, na Sala M. Félix Ribeiro.
– Mon Oncle (O Meu Tio, 1956) – Sábado, 14 de novembro, 10h30*, Salão Foz. Talvez o mais célebre filme de Tati, protagonizado pelo alter ego do realizador, o Sr. Hulot. Mon Oncle é uma sátira, ligeiramente passadista, da vida moderna, com particular incidência na arquitetura, o que suscita gags hilariantes numa mansão ultramoderna e pouco prática, onde se passa grande parte da ação e onde Hulot se revela incapaz de se adaptar aos novos tempos. A banda sonora, um prodigioso emaranhado de ruídos e trechos de diálogos, torna quase desnecessária a compreensão da palavra, restituindo a centralidade da imagem, marca da obra de Tati.
*Novo horário em conformidade com as diretrizes de combate à pandemia COVID-19 apresentadas pelo governo português, que decretam a proibição de circulação na via pública a partir das 13h nos dias 14, 15, 21 e 22 de novembro.

